Jimmy P

No segundo dia de festival O Sol da Caparica, a ocupação do recinto dividiu-se por gerações. Os mais jovens ficaram junto à entrada a vibrar com os novos nomes nacionais do hip hop: Deau, Bispo, Wet Bed Gang, Piruka e Jimmy P. Acima dos 20 anos, e em desvantagem numérica, chegaram-se ao palco principal. Djodje e um especial de Miguel Araújo voltaram a reunir famílias.

Pelas 17h30, a fila para entrar no recinto serpenteava os contornos do recinto do festival. Os carros paravam em segunda fila para descarregar teenagers que se juntam nas suas próprias tribos. 

Assim, quando Deau pisou o palco, não havia lugar para aquele concerto descontraído, de final de tarde, a que se assiste ainda sentado no relvado.  Daniel Francisco, conhecido por Deau,  rapper do Porto, entrou com vontade de agarrar a grande multidão que tinha já pela frente. E fazer barulho. Temas inspirados na sua história de vida, uma espécie de biografia que lhe sai em rima e com uma cadencia regular. Avisou, logo no início que não ia falar, pois tinha pouco tempo e ia ali para cantar. Passa a mensagem em forma de música e termina com um público a cantar com ele “Só Não Quero”.

A alternativa, para quem entrou a esta hora e ficou em horror com o léxico utilizado por estas paragens, foi o Anfiteatro. Num cenário quase idilico, fez-se outro uso das palavras, com Poetry Ensemble. Desta vez, o projeto integrou Carla Bolito, Miguel Loureiro e Rui Portulez na voz. 

Seguiu-se depois um concerto único de um trio de Percussão constituído por Pedro Carneiro na marimba, Alexandre Frazão na bateria e Jeffery Davis no vibrafone. Arranjos e improvisações, a amparar almas sedentas de harmonia. O projeto foi orientado pelo músico Pedro Carneiro, chefe de orquestra, compositor e solista de renome internacional.

De volta á familia do rap, a multidão continua a crescer com Bispo no palco. O músico é repetente neste Sol da Caparica e apresenta-se, pela segunda vez, com uma banda a reforçar os seus temas. “’Tá uma imagem bonita cá de cima” diz com um sorriso. E sublinha o facto de todos os festivais, hoje em dia, já terem em espaço para a música rap. Trouxe “Pormenores”, “Não Fui Sincero” e o recente “Nós2”, entre outras. 

O tom endureceu com a entrada dos Wet Bed Gang. A banda foi chamada várias vezes pelo público e percebeu-se que estão no topo das preferências da nova geração. O coletivo de rappers formado por Gson, Kroa, Zizzy Jr e Zara G surgiu em meados de 2014. João Rossi foi também membro fundador mas faleceu pouco tempo depois. A banda decide levar a música a sério, como forma de homenagear o amigo. O seu nome continua presente nos concertos e na música. 

O recinto torna-se pequeno e quem não chegou a tempo de guardar um lugar à frente, acompanha o concerto bem ao longe. Ainda assim, não se perde a energia que emanam do palco. Os elementos saltam, dançam, cantam, apelam ao público para os acompanhar. Há momentos de pura loucura como “Chaminé” ou “Maluco” e outros em que se saboreia o ritmo mas ondulante, como em “Não Sinto Nada”, “Aleluia” ou “Devia ir”. 

Entretanto, o palco principal abriu com Frankie Chavez. O guitarrista português fez a festa com alguns convidados: Fast Eddie Nelson, João Cabeleira, solista dos Xutos & Pontapés, e Peixe, o guitarrista dos Ornatos Violeta. O concerto permitiu mostrar material em que Frankie e Peixe andam a trabalhar já há algum tempo.

Seguiram-se os UHF. Veteranos e em casa. António Manuel Ribeiro começou por recuperar temas como “Os Putos Vieram Divertir-se” e “Matas-me com o Teu Olhar”. Aproveitou depois para consolidar a ligação com os antigos rivais de bairro e entrou no campo dos Xutos & Pontapés com “Se Me Amas”. Tim foi um dos convidados do início de noite, em prova da boa relação entre os músicos portugueses. Ouviram-se os hinos do rock nacional como “Rua do Carmo” e “Cavalos de Corrida”.

Do lado da família hip hop, há cada vez menos espaço para chegar perto do palco. André Silva é Piruka, assim conhecido para o mundo do hip hop nacional. Piruka é um dos maiores fenómeno nacionais nas redes de streaming. Mestre do improviso, arrasou no palco. Retrato cantado de uma vida nem sempre fácil, cujo percurso se corrigiu pela via da música. Entre as mais aplaudidas da noite estiveram “Salto Alto”, ”Se Eu Não Acordar Amanhã”, “Já se Passou Tudo” ou “Os Meus Putos”.

A fechar este palco, um nome já consagrado no meio: Jimmy P. Com arranjos especiais para os temas, regressou a este festival, já com evidente evolução do seu percurso. A maturidade de “On Fire”, no início do concerto, é prova disso.

“Ainda tenho idade para cantar, não tenho?” perguntou a determinada altura, Rui Reininho, dos GNR. A resposta é unanime, principalmente quando tocam temas como “Asas”, “Oculto Sangue”, “Morte ao Sol” ou “Videomaria”. Jorge Romão conserva o vigor da juventude e percorre o palco, a distribuir charme por todos os cantos. 

Os homens do Norte abriram fronteiras neste concerto. Trouxeram para o palco a secção de metais dos Los Cavakitos e Janelo, o carismático líder dos Kussondulola.

Djodje preparou um concerto especial para O Sol da Caparica. A superestrela da nova geração de Cabo Verde, autor do hit “A Fila Anda” em que colabora Jimmy P, fez subir ao seu palco os artistas Lura, Loony Johnson, Dino d’Santiago e, o rapper que o ajudou a interpretar este seu novo sucesso. 

Foi em ambiente de romaria que Miguel Araújo, o músico do Porto, abriu o baile com o seu  espólio de canções. Trouxe temas de Giestas, mas principalmente muitos convidados para se juntar à festa. João Só, Tiago Nacarato e Os Azeitonas ajudaram a fazer o concerto ainda mais especial. 

“E Tu Gostavas de mim”, “Racantiga” e ”Será Amor” foram a estrada que conduziu ao estrondoso êxito de “Os Maridos das Outras”. Em “Anda Comigo Ver os Aviões” tivemos uma soberba interpretação só com a concertina de Salsa, de Os Azeitonas. Os restantes membros da antiga banda de Miguel Araújo entraram no palco com uma dose extra de animação, para um final feliz de “Miuda”.

O Sol da Caparica abre portas hoje às 16h00. Pelo palcos vão passar Ana Bacalhau (20h00), Rodrigo Leão (21h00), Carolina Deslandes (22h00), Amor Electro (23h00) e Expensive Soul (00h15); no secundário: Voa (17h00), April Ivy (18h00), Orquestra Bamba Social & Tiago Nacarato (19h00); Homenagem a Cesária Évora (20h00); João Gil (21h00) e Sara Tavares (22h15).

Leave a Reply

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.