Crónica: Cultura Para Todos

Nº 26 – Para que servem os 2% do Orçamento de Estado para a Cultura? 

Sempre achei as notícias e debates sobre o Orçamento de Estado demasiado longas e enfadonhas. Fazem-me lembrar os momentos de espera para ser atendido para uma consulta. A diferença é que no caso do Orçamento de Estado sempre podemos mudar o canal ou fechar o jornal. Não percebo porque é que é preciso tanta conversa, afinal de contas só precisamos de saber quanto é que o Estado recebe, quanto gasta e em quê: de um lado as receitas e do outro lado as despesas. Mais nada. O resto serve apenas para alimentar longas horas de conversas e debates que servem para ocupar tempos de emissão dos canais de televisão, posts e tweets das redes sociais ou debates políticos nas rádios.

Vem isto a propósito da luta eterna dos profissionais da cultura para que esta área seja financiada com o equivalente a 1% do Orçamento de Estado. Mas será que o número mágico é assim tão relevante? Na verdade desde 1974 que isso nunca aconteceu, aliás esteve muito longe de acontecer. Fará diferença se for 0,80% ou 1,20%? Na verdade não é apenas um número redondo. Aliás para a atual legislatura o programa de governo prevê que essa meta duplique de forma a atingir os 2%. O que acontece é que este número não é a única questão que importa. Na verdade nunca se fala de políticas em vez de números, nem da relevância que a cultura tem na sociedade. Em vez disso questiona-se se a Cultura deverá subir a Ministério ou manter-se como Secretaria de Estado.

O problema das políticas culturais desde a implantação da democracia tem sido (com exceções) a sua irrelevância simbólica nos executivos governamentais. Faltam estratégias claras que se sobreponham à tentação de “construir obra” (museus, auditórios, pavilhões multiusos). Falta à cultura embrenhar-se no ADN e no estilo de vida dos portugueses. Ideias claras que vão além dos números de público, de concertos ou da enumeração de nomes de bandas de festivais como acontece nos media. Porque daqui a 100 anos ninguém se vai lembrar quem foi Maria Luís Albuquerque ou Mário Centeno, mas muitos vão saber quem foi Carlos do Carmo ou Herman José.

Por Óscar Enrech Casaleiro – Comunicador cultural desde 1997, atento à atualidade desde sempre.

N.R.: Esta crónica tem periodicidade quinzenal e é da inteira responsabilidade do seu autor

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.