A Chama Purificadora Dos Burning Ghosts E Os Fantasmas Que Se Ouvem A Arder

Por Daniel Carvalho (Texto)

Ao meu lado está um grupo de três senhoras de terceira idade, uma observação que poderá, à primeira vista, parecer um trava-línguas mas que, no fundo, apenas pretende retratar a força gravitacional do jazz: aquelas três senhoras, que a um par de olhos mais estereotipados pareceriam (exclusivamente) pertencer ao público-alvo dos concertos do Grande Auditório e não a este anfiteatro ao ar livre, olham para o panfleto com o programa completo do Jazz em Agosto para decidir a que outros concertos assistir. Lá à frente, um casal jovem passa em frente ao palco à procura de um lugar: ela veste um casaco preto com a inscrição “We Not Me”, em letras garrafais brancas nas mangas, e só me apetece corrigir para “We Not I”.

A intensidade das luzes diminui, a voz-off feminina, dá-nos as boas-vindas, pede-nos para desligar o telemóvel e alerta-nos para a interdição de registos áudio e vídeo. Primeiro em português e depois em inglês. E os Burning Ghosts surgem das escadas lá ao fundo, atrás do palco, entre o verde da relva e das folhas das árvores que dançam ao sabor do vento irrequieto da noite. Não perdem tempo, vão directos ao assunto, ainda o público não acabou a salva de palmas inicial, repleta de excitação, e já o baterista martela furiosamente nos instrumentos à sua frente, enquanto os restantes se instalam. Pouco depois, guitarra, baixo e trompete juntam-se, tocam uma linha melódica frenética em uníssono.

Findo o primeiro tema, Daniel Rosenboom, o trompetista, agradece ao público e à Fundação Calouste Gulbenkian pelo convite para estar presente no Jazz em Agosto e apresenta os restantes membros da banda: Jake Vossler na guitarra, Richard Giddens no contrabaixo e Aaron McLendon na bateria. De seguida, faz uma breve alusão (um aviso?) ao “Theme of Resistance” subjacente à música deste quarteto, que pretende ser simultaneamente um veículo de protesto e de unidade, em particular no actual momento da “American Political Arena” – esta vertente de carga política é, aliás, frisada na badana de cartão que acompanha o CD que comprei à saída: “a politically motivated quartet at the forefront of the jazz-metal underground”. A intervenção oral termina com anúncio de que o próximo tema se chama “Drowning on the high ground” e é dedicado ao contrabaixista Charlie Haden, falecido em 2014, e que é uma referência dos quatro.

“Revolution” é um dos temas mais marcantes da noite. Junta na perfeição dos elementos-chave deste quarteto: por um lado, o recurso à música como forma de expressão e, no limite, arma política (ou mesmo guerriha), resistência e contestação, uma característica que, de imediato, remete para bandas como os Rage Against the Machine; por outro lado, a fusão dos elementos de jazz com o heavy metal. Por esta altura, Vossler já pegou e colocou às costas a Flying V que figurava proeminentemente no suporte ainda os músicos não tinha subido ao palco, impacientemente à espera do seu momento para intervir. A guitarra parece afinada num registo mais grave (barítono, talvez), tem um som cru e saturado, envolvente e cheio. A própria linguagem corporal de Vossler remete para o metal: a páginas tantas, coloca o pé em cima do monitor enquanto rasga power chords na guitarra com formato em V, pelo meio ouvem-se os harmónicos que soltam quando abafa ligeiramente as cordas com a mão que palheta. Termina o tema virado para o amplificador, gerando um feedback controlado, tal como Giddens no contrabaixo.

É assim que os Burning Ghosts exorcizam os seus demónios, numa espécie de sessão psicanalítica, na qual os fantasmas que os mantêm acordados à noite são evidenciados, expostos, colocados a nu e confrontados. Partilhados com outros que têm, senão os mesmos fantasmas, outros bastante parecidos e que não poupam a ferida aos dedos que impiedosamente perscrutam o sítio onde dói. Em conjunto, submetem esses mesmos fantasmas às chamas purificadoras da música, até que sejam totalmente devorados e carbonizados.

O set termina após uma hora de música. Temos ainda direito a dois encores: primeiro “Free Fall” e, depois, “Harbinger”. No final, as minhas três vizinhas de vetusta idade levantam-se, de um salto, e oferecem uma incisiva salva de palmas aos quatro.

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