The Cure No Meo Arena Em Modo Nostalgia

The Cure

A estrutura capilar perdeu vitalidade e cedeu à invasão dos cinzas. No entanto, o essencial mantém-se: o timbre , a postura e as melodias que toda uma geração ouviu, à noite, no quarto. Quatro décadas de carreira dos The Cure couberam, ontem, em cerca de três horas de atuação, no Meo Arena. Um regresso ao passado, numa viagem nostálgica.

De datas anteriores, sabíamos que a noite ia ser longa. A The Cure Tour 2016 está a apresentar mais de trinta temas, sempre com alinhamentos diferentes. Novas canções mas acima de tudo, um regresso ao passado através de registos marcantes no percurso dos The Cure.

Foi uma faixa etária acima dos quarenta que respondeu à chamada. Colegas de liceu, de carteira, de dores de alma. Há muito que penduraram as vestes negras no armário. Mas há quem tenha voltado a carregar ontem, no lápis negro.

As marcas do relógio do tempo são visíveis em Robert Smith, o icónico vocalista, conhecido pela pele branca, cabelo desalinhado, lábios (mal) pintados de vermelho vivo. O essencial, a música, mantém a lenda viva. Temas eternos, que marcaram uma geração, foram tocados e cantados com olhar matreiro, cabeça inclinada, mãos a subir à cara em pose e o sorriso de quem fez, ou está para fazer alguma.

Abriram com “Open”, de 1992, do álbum Wish e no final ouviu-se um tímido “Obrigados”. De forma simples, a entrar pela porta grande, continua com “All I Want”, dos tempos mais comerciais de Kiss Me. Kiss Me Kiss Me. Segue-se “Push” e os écrans de fundo projetam a imagem do Meo Arena, recolhida de um ponto atras do baterista. Estamos de frente para nós próprios e todos no palco com os The Cure para esta noite de festa. Com “In Between Day”s chega o primeiro grande coro da noite. E entramos numa montanha russa de emoções, com a sequência de “Pictures of You”, “A Night Like This” e “The Walk”. Pelo meio, as musicas mais recentes (assim da década passada) são uma espécie de intervalo, para a malta circular e ir ao bar.

Novamente a abanar com “The Caterpillar” e a assobiar com “Lovesong”. 1989 torna-se, por momentos, uma data tão próxima! Chegamos ao final da primeira parte, com “End”, e já passou hora e meia de concerto. Alívio. Sabemos que ainda há muito caminho para percorrer.

img-8798O primeiro encore abre com o novíssimo “Step Into the Light”, ainda sem registo em álbum.

Robert Smith liberta-se finalmente da guitarra e agarra na flauta em “Want”. Esqueçamos o desempenho desastroso, e fiquemo-nos pela intenção… recua depois ao período gótico da banda e ao álbum Seventen Seconds com “Play for Today” e continua com o idílico “Forest”, em que o cenário passa a verde. Deste leque de belas e soturnas canções, falta-nos “Charlotte Sometimes”, mas, diz que não se pode ter tudo, não é? Um duelo de músicos com Simon Gallup, encerra esta parte.

O segundo encore abre cheio de cor e brilhos. “Fascination Street” põe o Meo Arena a dançar. Segue-se “Freakshow” e o próprio Robert Smith assume o nome do tema, ao acompanhar a musica com um chocalho e um pau. “Friday I’m In Love” será o grande sucesso comercial da banda e todos estão de pé a cantar e a dançar, da plateia à última fila do balcão 2. “Just Like Heaven” e “Boys Don’t Cry” selam esta sequencia de mega êxitos que não podiam faltar neste alinhamento.

Nova pausa para respirar. A idade não perdoa e as costas já pedem descanso. Nos écrans desenha-se uma teia. Reconhecemos, aos primeiros acordes de “Lullaby” e Robert Smith, que já largou as guitarras e contorce-se em palco, como se tivesse aranhas a subir pelo corpo. “Hot Hot Hot” é outro dos temas a pedir coro.

Em “Let’s go to bed” o cantor aproxima-se finalmente do público e recebe uma extraordinária ovação. Todos acenam e recebem de volta um sorriso tímido. “Close to Me” dá-nos o momento espontâneo da noite, quando Robert Smith corre para abraçar o teclista e faz desabar o público em gargalhadas.

“Why Can’t I Be You” é a despedida, com o vocalista a terminar ofegante, com as mãos junto à garganta. Percorre o palco de uma ponta à outra , em jeito de agradecimento e percebe-se que é mesmo a despedida.

Foi um noite que se desenrolou em formato de best of, com temas de todos os períodos da banda, que terá trazido muitas memórias boas. Long live the king!

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