Dez anos depois, a estreia dos Supernada com Nada É Possível

Há discos que já existem muito antes de chegaram às mãos dos fãs. É o caso do primeiro trabalho a sério dos indie-rockeiros Supernada, uma banda que esperou dez anos para oferecer ao público a sua edição de autor, intitulada Nada É Possível.

Os Supernada formaram-se em 2002 com um objectivo claro: criar música e tocá-la ao vivo. Assim foi, até 2006, ano em que os concertos pararam e começou o processo de gravação do álbum, que só foi finalmente lançado em finais de Março.

A estreia do projecto de Manel Cruz – vocalista de uns Ornatos Violeta que este ano farão uma pausa na sua morte para três concertos (Paredes de Coura em Agosto, Coliseus de Lisboa e Porto em Outubro) – foi sucessivamente adiada por razões várias, entre as quais a maior atenção dispensada aos Pluto e ao projecto Foge Foge Bandido.

O lançamento, aliás, adopta o formato do Bandido, enquanto combinado de livro e CD: o livro é composto maioritariamente por fotografias do grupo, a que se juntam manuscritos das letras e outros elementos, enquanto o disco traz 15 temas – mais uma faixa de 17 minutos na qual Manel Cruz explora sons –, onde salta à vista o código genético pop-rock, que por vezes descai para o psicadélico, que é a essência dos Supernada.

Ao lado de Manel Cruz, na voz, surgem Ruca Lacerda (guitarra), Eurico Amorim (teclados e sintetizadores), Miguel Ramos (baixo) e Francisco Fonseca (bateria), gente vinda dos Insert Coin e das Amarguinhas. Os Supernada são sobretudo uma ideia de Ruca – curiosamente, cabia-lhe o lugar de baterista nos Pluto – que, há dez anos, desafiou os outros quatro para se juntarem às músicas que tinha acumulado na guitarra.

“Arte Quis Ser Vida” dá nome à melodia do single, que é um dos temas que a banda escreveu já depois da reunião e um dos pontos altos do disco, com o saxofone a aparecer de surpresa e Cruz a cantar “o meu auto-elogio deu-me um calafrio/eu nunca tive jeito para peixe-de-rio”. Uma metáfora à sua própria carreira, sempre contra a corrente.

De resto, poucas canções fizeram a passagem do Ao Vivo no Santiago Alquimista – que muitos ainda chamam do “primeiro disco dos Supernada” – para Nada é Possível. Logo a abrir o disco, vem uma das antigas, «Sonho de Pedra», com a qual o grupo também abriu o concerto de 2005 – e a recente passagem pelo Lux. Transfigurado pelos anos, o tema deita-se sobre uma guitarra grunge, com o habitual crescendo no refrão, cortada pelos teclados e uma fuga que parece ser o início de outra canção. A letra original é uma miragem na nova versão, que quase se pode dizer que é um novo tema com o mesmo título.

Outro dos pontos altos é «Espuma», sonoridade que mistura indie com puro rock e que faz lembrar os Ornatos Violeta, e «Perigo de Explosão», com o timbre feminino de Susana Fernando a destacar-se no jogo de vozes, nos violinos e no violoncelo. Os mesmos instrumentos dão o mote para «Nada de Deus», uma das habituais (e curtas) baladas de Cruz.

Em termos de agenda, os Supernada são uma das confirmações mais recentes para a 18ª edição do festival Super Bock Super Rock, que terá lugar  na Herdade do Cabeço da Flauta, na praia do Meco, em Sesimbra, de 5 a 7 de julho.

Texto de Cristina Alves

http://www.youtube.com/watch?v=OQ7i-LOhxd4

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