De barco à descoberta de Odemira

passio_rio_mira (21)Reportagem de Ângela Nobre

Uma brisa de uma manhã de outono, mas que até podia ser de um dia menos frio de inverno ou deste início incerto e fresco de primavera, refresca a pele do rosto logo que arrancamos do cais, em Vila Nova de Milfontes. Vamos rio acima, numa manhã aquecida q.b. por raios de sol que rasgam as nuvens até preencherem mais espaço do que elas no céu azulão. É o clima ideal, sem frio gelado nem chuva, mas também sem o calor tórrido do interior alentejano.

Devagarinho, as águas do rio Mira vão sendo rasgadas pela embarcação que agita a calma por onde passa. Algumas garças levantam vôo com o anunciar da proximidade dos visitantes, que absorvem a tranquilidade da paisagem, esquecendo até momentaneamente o barulho do motor. Pelo caminho chega-se a assistir a “danças” de bandos entre as duas margens do rio, que vão anunciando a nossa chegada.

Cerros, vales, juncais e sapais, campos verdes, outros de terra avermelhada, coroados com sobreiros, vestidos de estevas ou de pasto, vão sendo desvendados a cada serpentear do rio, conforme nos afastamos da foz e nos aproximamos da histórica vila de Odemira.

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Numa viagem a um ritmo brando, à boa maneira alentejana, mas que também é a única que permite apreciar realmente este património, quase todo natural, mas não só, que integra o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e da Costa Vicentina, vamos avançando pelo rio que tem origem na serra do Caldeirão e atravessa o concelho de Odemira, desaguando no oceano atlântico, numa foz “guardada” pelo centenário Forte de São Clemente.

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Rico em fauna e flora, com mais de 130 espécies piscículas, o rio Mira é habitat natural de lontras, cágados e lagartixas, além de receber espécies nidificantes como o rouxinol-pequeno-dos-caniços, o guarda-rios, a garça-real, a cegonha-branca ou a galinha-de-água.

Nas margens, entre juncais, aponta Rui Catalão, o “guia”, mestre da embarcação e proprietário da Duca, a empresa de animação turística que proporciona estes passeios de forma regular, podem ainda ver-se vários antigos moinhos de água, agora abandonados. Sinais históricos do tempo que passa. Há anos atrás chegaram a ser mais de 30 os também designados como moinhos “de maré”.

Entre alguns montes claramente perdidos no esquecimento, abandonados, algumas novas habitações, umas com estilos modernos, outras recuperando o tradicional da região, povoam aqui e ali algumas clareiras de onde se adivinham vistas encantadoras.

Pelo caminho, vai-se ainda encontrando um ou outro pescador que acena conforme passamos. Andam nas margens do rio, a apanhar ameijoa.

Nada disto é completamente incógnito aos “turistas” que neste dia me acompanham na viagem. Mas poucas são as oportunidades que têm para o apreciar. Para alguns é até a primeira vez que o fazem a partir do leito do rio. Quase todos “filhos da terra”, os funcionários e proprietários do restaurante “Frateixo”, instalado junto ao cais, em Vila Nova de Milfontes, diariamente vêem partir e regressar os turistas, maioritariamente estrangeiros, que procuram desta forma conhecer melhor a região. Ouvem os relatos, tiram dúvidas, dão sugestões, mas raramente podem contar histórias na primeira pessoa. Pois neste dia são eles “os turistas”. Partem de farnel aviado e máquina em punho, já com um piquenique planeado à chegada a Odemira, num pequeno parque nas margens do rio.

Este é um exemplo de pequenos gestos de promoção e das parcerias que Rui Catalão estabelece com os “colegas” locais relacionados com o sector turístico. Cria uma maior sensação de pertença e contribui para a sensibilização da comunidade, para o conhecimento e para a valorização do património local, todos o confirmam.

À chegada a Odemira, onde habitualmente a embarcação permanece cerca de três horas antes de regressar, há tempo para, além de almoçar (seja em piquenique, seja em algum restaurante local nas proximidades), de passear pela zona histórica da vila, a “dois passos” do rio.

Prédios antigos pintados de branco rodeiam a calçada que conduz, sempre a subir, por ruas estreitas até ao centro histórico da vila. Chegar ao topo, no Cerro do Peguinho, onde está a Biblioteca Municipal e um miradouro, acaba por ser uma boa recompensa pelo esforço da subida.

Maior riqueza ainda, para quem aprecia o contacto com as gentes locais, será a possibilidade de visitar e conhecer alguns dos artesãos em actividade, para o que, a própria Duca disponibiliza um mapa da vila sinalizado, com algumas sugestões. “Os Chocolates da Beatriz”, com fabrico artesanal, próximo da margem do rio, ou os ateliers de tecelagem de Helena Loermans e de Elsa Ramos são alguns exemplos, entre vários, de locais a visitar.

A meio da tarde, é tempo de despedir da pitoresca vila-sede do maior concelho da europa. De volta à embarcação lotada, onde podem viajar cerca de 12 turistas de cada vez, é altura de aproveitar para observar em mais detalhe algo que tenha escapado no início da viagem.

O C&H viajou a convite da empresa de animação turística Duca. Os passeios regulares são retomados no mês de maio, mas até lá, há algumas iniciativas previstas, bem como podem ser requisitados os serviços através de reserva. Para mais informação, basta consultar os contactos em www.duca.pt.
 
 

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