Teresa Salgueiro, Tó Trips E Mão Morta No Caminho De Dante

Reportagem de Tânia Fernandes (Texto) e António Silva (Fotografia)

Mão Morta

A proposta cruzava arte com literatura e música. Um concerto, que combinou com sonoridades muito diferentes da música portuguesa, ligados pela literatura de Dante a estética de Dali. A viagem, teve lugar este sábado, no Armazém 16, em Lisboa. Começou pelo Paraíso, passou pelo Purgatório e terminou no Inferno.

A abertura de portas fez-se com grande antecedência, ainda assim era longa a fila para entrar no Armazém 16, em Marvila. O amplo espaço, que já serviu de entreposto de cargas e descargas ferroviárias, e tem uma vista fantástica sobre o Tejo, acolheu este evento. No corredor de acesso à grande sala onde tiveram lugar os concertos, os tais apontamentos que remetiam para Dali resumiam-se a algumas projecções da obra do artista e lasers. Pobre e sem grande impacto.

Lá dentro, à hora marcada fazia-se sentir o calor e o lamento pela ausência de bebidas. Havia somente um quiosque com café, águas e uns refrigerantes. Manifestamente escasso para uma maratona de três horas de música, anunciada para a quente tarde de sábado.

Teresa Salgueiro foi a primeira a pisar o palco, a personificação do Paraíso. Voz doce e melódica, a oscilar entre a melancolia e a genuína alegria. Vestida de branco, a acentuar o paralelismo com a visão de Dante no Céu, guiado por “Beatriz”, seu amor platónico. Nós fomos guiados por Teresa Salgueiro, que nos trouxe, entre outras, canções como “O Céu”, “O Menino, “Anjo Inútil”, Horizonte”, “Alegria” e “Luz”.

Seguiu-se Tó Trips, numa passagem para o “Pugatório”, que Dante identificou como transitório. O músico, Tó Trips é cofundador de marcos da recente música nacional, como é o caso dos Lulu Blind ou Dead Combo. Trouxe, para o palco, essa passagem, com uns momentos mais melancólicos e outros mais luminosos. Mestre na guitarra, à qual consegue colar uma linguagem portuguesa inequívoca, proporcionou um bom momento de viagem.

A luz forte vermelha, a ferir a vista, coloriu o espaço com a entrada dos Mão Morta em palco. Sem dúvida, estávamos a entrar no inferno guiados pela poesia das trevas e o rock diabólico da banda liderada por Adolfo Luxúria Canibal. O público fez-se ouvir e percebeu-se que esta era a banda pela qual tinham apostado a tarde. As palavras duras, umas vezes gritadas, outras vezes sussurradas, eram acompanhadas por quem assistia, a dançar ao ritmo das ondas intensas da música. Ouviu-se “Pássaros a Esvoaçar”, “Tu Disseste” e “Sitiados”, neste início de viagem que durou cerca de uma hora. Sem grande confusão, o público acompanhou o concerto, atento às expressões e movimentos do cantor. Um verdadeiro ator a interpretar letras duras, como em “Hipótese de suicídio”, em que enrolou o cabo do microfone ao pescoço, e gritou os pensamentos de muitos “Enxovalhado no trabalho/ Mal tratado na doença/ Humilhado no salário/ Ma dignidade”.

Dedicou “Lisboa” a dois músicos que encontrou neste evento: Tó Trips e “Jorge Ferraz Martins, e fez deste final de tarde, a verdadeira festa de zombies. Um enorme aplauso foi sentido no final. O público presente estava, indiscutivelmente, a gostar e a saborear o som contagiante da banda.

“A Arte de Dalí & A Música Contemporânea” que se anunciou como espetáculo imersivo da Trilogia de Dante foi salva pelo rock.

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