Super Bock Super Rock entra em 2014 com o pé direito

SReportagem de José Boaventura Rodrigues (texto) e Tiago Espinhaço Gomes (fotografias)

A vigésima edição do Super Bock Super Rock arrancou ontem. Com uma mão cheia de boas atuações por parte de bandas como Metronomy, Tame Impala e Massive Attack, quinta-feira contou com 29 mil pessoas, número distante de algumas enchentes em anos anteriores.

Faltam dez minutos para as vinte horas quando Erlend Øye sobe ao palco EDP. Do distante palco principal ouvem-se ainda ecos dos norte-americanos Vintage Trouble, donos de um rock em tons de soul-funk, direto e sem truques de maior, que satisfaz com mérito um grupo diminuto de festivaleiros de fim de tarde.  Já Erlend Øye apresenta-se com atitude descontraída, mais dedicada ao divertimento do público do que à performance musical em si. Ao longo do concerto, o músico (quase sempre acompanhado de guitarrista e flautista) apresenta alguns dos temas do seu percurso a solo, que misturam sonoridades folk reminiscentes do duo Kings of Convenience com tonalidades mais coloridas decorrentes da sua nova “identidade” italiana (de acordo com o próprio, Erlend mudou-se há dois anos para a Sicília). Pelo meio há tempo para conselhos inconsequentes sobre como compreender mulheres ou que cerveja escolher no festival. A atuação termina num registo pouco sentido do belo tema “La Prima State”, “cartão-de-visita” da carreira do artista a solo.

                                                           

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Rumo ao palco principal, as batidas por minuto aumentam consideravelmente com Metronomy, cujo aparato só por si é convincente: nuvens cor-de-rosa a lembrar vagamente a capa do mais recente álbum (“Love Letters”), indumentárias brancas e teclados a condizer. A sonoridade de Metronomy convida a momentos de diversão e aos saltos dos espectadores (fica na memória a execução de “The Look”, do aclamado álbum “The English Riviera”), entrecortados com temas mais lentos mas igualmente bem conseguidos, tais como “The Upsetter” e “Month on Sundays”.

A antecipação em torno dos nomes grandes da noite começa a instalar-se mas ainda é tempo de alguns desvios pelos palcos secundários. O palco Antena 3 ainda não sintonizou na música eletrónica e empresta o seu espaço a Frankie Chavez, artista nacional que encarna com segurança invejável o blues-rock norte-americano. A tenda está cheia para ver e ouvir Frankie e este aproveita para introduzir vários temas do novo álbum (“Heart & Spine”). Ao mesmo tempo, no palco EDP, os australianos The Cat Empire animam uma generosa multidão com uma surpreendente mistura de sons: jazz que evoca teclados espaciais a la Herbie Hancock e que pede emprestadas influências do ska, reggae, ao hip-hop e música cubana.
 
Nova corrida ao palco principal, onde os Tame Impala se preparam para uma inusitada subida ao palco: uma gravação de “Can You Feel The Love Tonight?” de Elton John, com vocais mais graves do que o habitual e uma cadência dubstep acompanha a entrada dos músicos. O resultado é cómico e terá possivelmente uma boa explicação por trás.
Tame Impala é possivelmente o melhor resultado do revivalismo do rock psicadélico e progressivo da década de 70, um feito para uma banda com apenas dois álbuns de originais (os excelentes “Innerspeaker” e “Lonerism”). Kevin Parker e companhia começam por chamar festivaleiros de todos os cantos do recinto com uma longa versão da faixa introdutória “Be Above It”. Ao longo de uma hora, a banda reproduz com quase perfeição temas como “Solitude Is Bliss”, o orelhudo “Elephant” (nem de propósito), “Why Don’t You Make Up You Mind”, “It Feels Like We Only Go Backwards” e “Apocalypse Dreams”. No entanto, nota-se que a voz de Parker parece ficar aquém do poder transmitido no estúdio (os efeitos da própria produção poderão ter alguma responsabilidade no assunto).
 
Mais tarde, o jovem Jake Bugg entretém um público a condizer com um folk / country rock. Alguns espectadores juntam-se na espera pelo cabeça de cartaz, que atuará no palco principal em poucos minutos: os ingleses Massive Attack voltam a Portugal pela décima quinta vez para presentear a noite do Meco com um trip hop experimental que lhes valeu uma legião de fãs ao longo de mais de duas décadas de carreira.

Massive Attack, conduzidos pelos já veteranos Robert Del Naja e Daddy G, contam com a ajuda preciosa dos habituais convidados da banda: Horace Andy, Martina Topley-Bird, Deborah Miller. Juntos interpretam, para satisfação notória da plateia, temas da praxe como “Unfinished Sympathy”, “Teardrop”, “Angel” e “Safe From Harm” e tantas outras faixas que, em conjunto com os elementos visuais, tornam todo o concerto numa experiência hipnótica e gratificante. No painel eletrónico que serve de fundo à banda, o público é presenteado com uma sequência avassaladora de animações que deixam alertas sobre os efeitos do capitalismo, da guerra e da partilha de informação online. De resto, os elementos visuais traduzidos para realidade nacional mostram um trabalho de casa capaz de captar o público para as mensagens transmitidas: frases em português, cabeçalhos de notícias regionais (“Sanitas e bidés dão música em Leiria”; “Garota de Ipanema afinal era do Alentejo”), logotipos de marcas nacionais.

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A noite continua ainda com Panda Bear, um ícone do indie experimental norte-americano bem habituado às andanças nacionais (vive há uns anos em Lisboa). Perante escassas dezenas de seguidores fiéis e outros tantos passageiros curiosos, Panda Bear usa o palco EDP como laboratório para temas novos (ou para um único tema contínuo ao longo de toda a actuação?). O músico joga com elementos electrónicos e espaciais, acompanhados por voz (tão consistente que parece playback) e animações que conjugam padrões psicadélicos como animações femininas pouco discretas. Fica a curiosidade para futuras obras por anunciar.

 
O fecho do palco principal ficaria a cargo de Disclosure, o duo composto pelos irmãos Lawrence, que apresenta temas dançantes do seu trabalho de estúdio “Settle” (vencedor de Grammy na categoria eletrónica no presente ano). Perante composições house que emanam qualidade, os festivaleiros noctívagos desculpam com facilidade o atraso inicial e a interrupção que aconteceria devido a problemas técnicos. O primeiro dia do Super Bock Super Rock termina ainda com a eletrónica do palco Antena 3. Sexta e Sábado há mais.

 

 

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