Quando Adormecemos Entramos Nos Pesadelos Pop De Billie Eilish

Reportagem Tânia Fernandes

Billie Eilish

É um dos fenómenos musicais mais recentes, pela forma rápida e eficaz com que conseguiu estabeleceu uma forte ligação com a camada mais jovem do mundo inteiro. Aos 17 anos Billie Eilish é o ídolo dos sub-18. Trouxe a Lisboa as músicas que dão expressão aos pesadelos noturnos de uma geração.

MadeinTYO, o artista que abriu o concerto de Billie Eilish, pôs a Altice Arena em reboliço. Às 20h00, já todos dançavam de braços no ar, a seguir as indicações do rapper americano. “Mãos no ar” e “agora cantem comigo” foram algumas das palavras que ligaram os curtos excertos de músicas, que o cantor e compositor de Atlanta, Georgia foi apresentando. Alguns beats mais conhecidos deixaram o público eufórico, entre eles, “Uber Everywhere”.

No intervalo que antecedeu a entrada da jovem Eilish, alinhavam-se, junto às paredes laterais, as consequências de uma longa espera pelo concerto. Muitas jovens tiveram de ser assistidas pelos paramédicos que, com toda a disponibilidade e simpatia, iam distribuindo copos de água. O calor e a fadiga pelo esforço de chegar cedo, acabaram por deitar abaixo o que parecia garantido: um lugar na frente. Antes mesmo de o concerto começar havia já muito boa gente a chorar inconsolável.

Billie Eilish

Gente muito jovem mesmo. Muitos pré-teens, na sua maioria público feminino, a exigir um adulto a acompanhar. Uma geração que se deixou seduzir pelo fenómeno Billie Eilish numa espécie de devoção transcendental. Dispostos a deixar ali todos os seus sentimentos, em absoluto descontrolo. Assistimos ao choro nervoso, mas também ao sorriso mais rasgado. Do telemóvel no ar, com o braço a tremer, às lágrimas de felicidade a iluminar rostos.

Assim, quando a cantora pisou o palco os gritos eram ensurdecedores. Ao ponto de abafarem a sua voz amplificada. Com uma curta carreira, conseguiu montar um bom espetáculo, composto de registos diferentes. Começou com a raiva de “Bad Guy”, que iria repetir no fim, passou por momentos melodiosos como “idontwannabeyouanymore”, e fez sentir a batida do hiphop em “Copycat”. Mas o que sobressai nesta figura pop é o seu lado obscuro. O concerto abriu com um vídeo animado, ao jeito de Tim Burton. Uma casa assombrada, onde o sono é perturbado por aranhas. Um universo de amargura que corre nas letras das músicas de Billie Eilish. A cantora norte americana faz lembrar aquela colega de escola, que todos tivemos, que era de artes. Cabelo colorido, pouco composto, roupa oversized, a ocultar curvas, andar gingão, quase aos pulos, atitude rebelde, de quem desafia a autoridade instituída e não acata normas. E é este o sonho dos jovens. A mensagem inspiradora que que lhes dá voz aos pensamentos.

Lisboa encontra-se na reta final da digressão de When We All Fall Asleep, Where Do We Go? na Europa. O desgaste físico já deixa sequelas, mas não é impeditivo de que a estrela faça uma estreia memorável em Portugal. Billie Eilish diz que tem os dois pés magoados e traz um deles imobilizado, numa bota. Mas movimenta-se, na mesma, de forma desenfreada por todo o palco. Avisa, só no início, que estará um pouco mais limitada, mas o público dá-lhe toda a força para avançar pela noite dentro.

Apresentou quase todo o novo álbum, algumas do EP anterior, Don’t Smile At Me e ainda um tema que fez para a banda sonora de Roma “When I Was Older”.

Antes de “I Love You” a super balada do registo, apresenta o irmão, Finneas e explica que é com ele que compõe os temas e é ele o produtor do seu trabalho. Conta também que escreveram a música, no quarto, às duas da manhã e querem por isso, reproduzir a cena para os fãs. É numa cama suspensa que a interpretam, com um enquadramento emocionante, de luzinhas a brilhar em todo o recinto.

De forma espontânea, no final o publico grita-lhe “We love you” e ela responde, feliz “I love you more!” e avança para o seu single de estreia “Ocean Eyes”. Antes do final, não se cansa de agradecer a noite incrível que teve. Pede para todos segurarem a mão de quem têm ao lado e para cantarem com ela “When The Party’s Over”.

As lágrimas secam-se com a fúria de “Bury a Friend” e voltam os contornos negros de uma mente tortuosa. A intensidade dos gritos do público mantém-se igual durante todo o concerto. Parece até explodir com o encore, com todos a fazer de “Bad Guys”, no final desta história.

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