Ocupas gastronómicos por uma noite em jantar Silver.spoon

squatting22Reportagem de Tânia Fernandes

A proposta de ocupar “ilegalmente” um espaço abandonado em Lisboa, para jantar, parece ter convencido. Foram muitos os que se candidataram à experiencia promovida pela Silver.spoon, a empresa dinamarquesa que organiza jantares de guerrilha. Um palácio abandonado na Lapa, em Lisboa, onde já funcionou o Museu da Rádio foi “ocupado” nos dias 15 e 16 de abril. Sexta-feira e sábado a irreverência sobe ao Porto. Inspirados no tema Squatting, de ocupação de espaço, sem qualquer tipo de autorização legal para o utilizar, os organizadores sugeriam que se trouxesse um copo ou uma caneca. Afinal de contas, quem ocupa um espaço, está a levar bens seus para território alheio.

À hora marcada, pelas 19h30, já se viam ocupas de ocasião a passar o portão grafitado do nº 6 de uma Travessa na Lapa. O sorriso de Cindie Christiansen, em dos elementos da equipa, convidava a entrar num espaço de beleza decadente ao mesmo tempo que nos estendia uma luva de plástico. Tapetes de cartão a fazer de passadeira guiavam para o interior da casa, iluminada por velas. Uma bebida recolhida à chegada e desvenda-se o mistério da luva. Vai servir para ajudar a comer o snack de entrada “Urban Fishing”, constituído por salmão cozinhado em vácuo, com maionese.

A sala vai-se compondo e são mais de meia centena os convidados na segunda noite deste evento em Lisboa. O maior desafio, partilha-nos Cindie, foi servir um jantar para um grupo deste tamanho sem água, luz ou eletricidade. Começamos a tentar imaginar o processo sem as comodidades a que estamos habituados e as dúvidas surgem em catadupa. Muita ginástica de logística a obrigar que tudo (ou a maior parte) seja preparado fora e trazido para o espaço. O evento é gastronómico mas eles vão além disso. O objetivo é envolver as pessoas com o tema. Fazê-las sentir, neste caso o Squatting, e contar-lhes uma história. Como se todos os ingredientes deste jantar, comestíveis ou não, confluíssem para esta causa. A harmonização dos vinhos foi trabalhada em conjunto com o parceiro em Portugal, o Grupo Thema Hotels e baseou-se numa seleção de vinhos de produção local.

squatting09William Milsted, o chefe, vem às mesas apresentar os pratos. “Missing Payments” é o que temos de entrada, a relembrar as rendas que não se paga por esta residência. O prato é composto por lulas grelhadas, maionese, batatas e fruta e acompanha um Quinta do Monte D’Oiro Lybra 2007 bem fresco. Segue-se “Out Of Gas”, um carpaccio de vitela, cru porque “não há gás” recorde-se… servido com o Rosé de Setúbal Herdade do Cebolal. Depois do gás, o problema com que estes ocupas se deparam é com a falta de luz, que está na origem de “No Electricity”, o prato de massa e bacalhau fresco, envolvido em leite e com sementes de abóbora. William Milsted confia-nos o segredo deste prato, que está num óleo à base de sementes de abóbora, que o chefe trouxe especialmente da Dinamarca. Um casta única, Quinta do Monte D’Oiro Madrigal 2011 vinca a personalidade deste prato.

A carne aparece em “Broken”, um retrato dos seguidores deste movimento. Neste caso, podemos estar falidos, mas temos o melhor dos pratos à frente, com grande variedade de sabores, entre eles, iogurte de wasabi, maçã com diferentes tipos de tratamento, quinoa, sementes de cânhamo e de papoila. A acompanhar, um tinto Herdade do Cebolal, Vale das Éguas 2010 de Setúbal.

“Stolen Sweets” fecha este menu e o chefe alerta para uma viagem que pretende proporcionar com ele, pelos sentidos das papilas gustativas: “É doce, mas também ácido, salgado e amargo. E explode na boca!”. O efeito petezetas, que todos reconhecem à mesa, envolve o gelado de ananás que vem embebido em gengibre, canela, creme de iogurte, açúcar e pistachio. No pacotinho às riscas, umas guloseimas roubadas: um marshmallow e um caramelo salgado. Um cocktail acampanha a sobremesa.“Singleton Fruit Cake” é composto por whisky de malte de 12 anos, Grand Marnier Rouge e sumo de limão.

As mesas corridas das três salas do palácio vão-se esvaziando. Na mão, os ocupas levam um panfleto, a “13ª edição do Manual dos Squatters” em que se informa sobre a lei que lhes assiste, os delitos em que incorrem, conselhos sobre a forma como lidar com a polícia e ainda bibliografia sobre a matéria. Caso a coisa ganhe mesmo contornos mais punitivos, fica a lista de documentos que convém ter à mão para o caso de ter de ir a tribunal.

Em época de contenção, esta é uma experiencia gastronómica que nos leva a refletir sobre a quantidade de espaços abandonados e do potencial aproveitamento de muitos deles. Um brinde!

 

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