O Rock Em Pano De Fundo No Terceiro Dia De Rock in Rio

Reportagem de Tânia Fernandes e António Silva

Rock in Rio Lisboa

As condições climatéricas condicionaram o terceiro dia de Rock in Rio: o rock foi abençoado pelo Sã0 Pedro. O público tornou-se uma massa homogénea de impermeáveis, abrigados sob sofás vermelhos. Despedidos da sua função, os mais cobiçados brindes do festival passaram a cobrir cabeças. Nem a chuva demoveu a emoção com que se viveram os concertos de James, The Killers, Chemical Brothers e a homenagem a Zé Pedro, com o regresso dos Xutos & Pontapés. 

“Rock molhado, rock abençoado”, terá sido o mote do dia. As deslocações tornaram-se mais difíceis, com o chão enlameado. Os poucos abrigos disponíveis pelo recinto foram muito requisitados, em especial nas pausas do palco mundo, quando a chuva caiu mais intensa.

Chovia quando os James entraram em palco. Alguns problemas de som pareceram também não atrapalhar nem os músicos nem o público, ávido por assistir à banda, conhecida pelas suas performances emotivas.

Os James estão a preparar um novo trabalho, Living in Extraordinary Times. Mostraram as novidades, com mensagens políticas para Donald Trump, mas sabem exatamente quais os temas que o público quer ouvir. E assim, depois do arranque abriram os braços à memória com “Sit Down” e “Frustration”. Tim Booth, o vocalista, ignora sistematicamente as barreiras de segurança e passeia e mergulha na multidão ao longo do concerto.

Ao regressar ao palco, deixa uma critica, à qual junta uma reflexão. Afirma que viu muitos telemóveis e pergunta “querem viver o momento ou a memória?”.  Diz que ao olhar para as pessoas quer-lhes ver a alma e não pixels (alusão ao tema “Sometimes”, que tocam mais à frente)

A proximidade da banda a Portugal já é conhecida, e deixam evidências ao longo do concerto. Andy Diagram, o trompetista, usa uma camisola da seleção nacional e são várias as vezes em que se dirigem ao público na língua de Camões. Dedicam “Moving On” a quem perdeu alguém recentemente e terminam a festa com “Getting Away With It” e “Laid”. Pelo meio, Tim Both promove momentos de grande emoção, junto ao público com “Sometimes”. Junta um contacto visual intenso a um toque na mão e deixa as fãs em lágrimas.
Uma certeza: com mais de três décadas de carreira, continuam a ser uma das bandas mais inspiradoras, em especial, nos seus espetáculos ao vivo. O concerto fez-se de clássicos que todos continuam a saber cantar.

O concerto dos Xutos & Pontapés, com homenagem a Zé Pedro, o guitarrista recentemente falecido, foi um dos momentos muito aguardados da noite. Todos os portugueses têm uma guitarra na alma, pronta a sair do saco, para acompanhar Xutos. E ainda que não tenha sido um dos concertos mais extraordinários da banda, foi um momento de celebração bonito. Percebe-se que a banda vai continuar e esta perda vai passar a fazer parte deste novo ciclo dos Xutos & Pontapés. Para já, a banda não substituiu o guitarrista e fez novos arranjos nas músicas, de forma a tocar sem a presença de uma das estrelas do rock português.

O alinhamento contou com alguns momentos chave como “À Minha Maneira”, “Chuva Dissolvente”, “Avé Maria”, “Circo de Feras”, “Não Sou o Único” ou “Remar Remar”. “Fim do Mundo”, o mais recente single, também integrou o alinhamento, desta banda que tem conseguido manter o interesse e a admiração do público, ao longo da carreira. Ao contrário da maioria das bandas portuguesas que vão tendo os seus momentos de popularidade, aqui as gerações sucedem-se e continuam a acompanhar o seu trabalho. A banda vai editando novas músicas que todas as pessoas cantam.

Imagens do Presidente da República a abanar a cabeça, ao ritmo da música, foram surgindo no ecrã, intercaladas com as dos Xutos.  Marcelo Rebelo de Sousa apoiou esta homenagem. Juntaram-se-lhe outras figuras públicas em palco, o Primeiro Ministro António Costa, o Presidente da Assembleia da República António Ferro Rodrigues e o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa Fernando Medina.

A banda trouxe imagens de Zé Pedro num concerto no Estádio do Restelo, a abrir “O Homem do Leme”. O momento mais emotivo fez-se debaixo de chuva torrencial, com muitos convidados em palco, a cantar “A Casinha”.

Os The Killers arrasaram em palco. O concerto celebrou o mais recente trabalho, “Wonderful Wonderful” lançado em setembro de 2017, mas integrou hits que marcaram esta década e meia de carreira.

O quarteto de Las Vegas abriu com “The Man” e depois deixou logo o público aos saltos com os conhecidos “Somebody Told Me” e “Spaceman”. Há uma produção grande de luzes, que impressiona. A encenação é uma constante, desde os ecrãs à própria postura da figura de frente dos The Killers.

O vocalista e teclista Brandon Flowers é um fenómeno de popularidade e, ao vivo, constrói os temas de forma interativa, com a colaboração do público. Ao longo do concerto, houve muitos momentos de “ora canto eu, ora cantam vocês” e vai esticando o microfone na direção da grande plateia humana que vibra em crescendo. “Dustland”, “Runaways” e “Read My Mind” foram outros desses grandes momentos. A música dos The Killers é feita de grandes refrões que encontra, no Rock in Rio, uma espécie de habitat natural para se expandir e brilhar.

Foi quase uma hora e meia, de concerto, que fechou com “Human” e “Mr Brightside”.

Os Chemical Brothers fecharam o palco mundo, com a sua música eletronica. A banda tem vindo a redefinir este tipo de música tocado ao vivo, evidenciando uma componente humana. A componente audiovisual é forte e proporciona um outro espectáculo ao público, que vibra com o ritmo da batida, mas também com as imagens futuristas. “Hey Boy Hey Girl”, “Galvanize”, “Star Guitar” e “Go” fizeram parte da noite.

No palco Music Valley, Manel Cruz veio mostra o novo impulso que está a dar à sua carreira, a solo. Mostrou um pouco do novo trabalho, a editar em setembro. “Cães e Ossos” é o novo single de Manel Cruz, que dá nome ao disco de estreia a solo do ex-vocalista dos Ornatos Violeta, Pluto, Foge Foge Bandido e Supernada. O cantor e compositor, natural do Porto, fez-se acompanhar por António Serginho (percussão), Eduardo Silva (baixo, voz) e Nico Tricot (teclado, voz).

Capitão Fausto conseguiram criar uma identidade própria, que vieram mostrar a este palco. O músico Luis Severo foi convidado a juntar-se à banda em palco.

A noite neste palco continuou com Revenge of the 90’s, a festa que começou no início do ano, com um evento para 500 pessoas. Tem vindo a conquistar seguidores, com iniciativas cada vez maiores – vai andar em digressão pelo país durante o verão – e chegou ao Rock in Rio. Este é um dos fenómenos do mercado da nostalgia que se tem revelado uma aposta de sucesso. Haddaway a banda da Califórnia, Crazy Town e os bem portugueses e Ena Pá 2000 juntaram-se à festa.

Nas Pool Parties, por força da chuva, a festa “Cai os homens” passou para domingo. Trata-se da recriação do célebre programa da década de 90 “Ai os Homens”, com apresentação de José Figueiras.

No último dia de Rock in Rio Lisboa as mulheres vão dominar o palco mundo. Hailee Steinfeld , Ivete Sangalo, Jessie J e Katy Perry vão ser as estrelas de um dia em que o festival vai fazer uma pausa para assistir ao jogo de futebol entre Portugal e o Uruguai. Ainda há bilhetes à venda, nos locais habituais, pelo valor de 69 euros.

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