O Arquivo da Santa Casa em Exposição na Galeria da Igreja de S.Roque

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Trazer um arquivo para a luz do dia e expr objetos, alguns tão íntimos que revelam o princípio atribulado de vida de quem foi entregue aos cuidados de uma instituição, outros tão generalistas como a obra social de um organismo é parte do que encontramos na exposição A Visitação. O Arquivo: Memória e Promessa na Galeria das Exposições Temporárias da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML).

Paulo Pires do Vale, o curador desta exposição, enfrentou o desafio de desvendar parte do Arquivo Histórico da SCML. 516 anos de atividade “sem o desejo da exaustividade, antes seguindo o modelo da exemplaridade” de acordo com o próprio. Quis ainda estabelecer uma ponte entre o passado e a atualidade através do convite a três artistas contemporâneos para um olhar interpretativo a este Arquivo. Deparamo-nos com o primeiro trabalho, antes ainda de entrar na Galeria, dentro da Igreja de São Roque: uma instalação do realizador Pedro Costa com dois écrans gigantes a sobrepor-se à talha dourada. Duas crianças, duas expressões de olhar intenso a fixar quem passa.

Um dos núcleos desta exposição foi o objeto de trabalho de Daniel Blaufuks. “Cortes” é o nome que o fotógrafo deu ao resultado da sua visita ao Arquivo. Registou, com a sua câmara, os Sinais dos Expostos. A SCML tem a maior coleção do mundo, são mais de 87 mil objetos guardados , relativos a crianças, que pelas mais variadas razões eram entregues pelas famílias aos cuidados desta instituição que garantia a sua criação e educação. Juntamente com a criança era entregue uma espécie de senha, ficando a família com a contrassenha e muitas vezes o sonho de melhorar as condições financeiras para a poder recuperar. Uma carta recortada de forma irregular, uma medalha, um tecido permitiria, mais tarde, fazer prova dessa entrega. E são alguns desses impressionantes sinais que encontramos em exposição nesta “Visitação”. As histórias felizes, neste caso, contam-se nas vitrinas em que o sinal se encontra completo, com as duas partes complementares visíveis. Presente sempre o conceito que deu nome à exposição, com cada um destes documentos a representar a memória que encaixa numa promessa.

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O terceiro artista convidado a integrar esta exposição escolheu, do fundo musical do Arquivo, uma peça musical antiga e compôs uma nova em diálogo com essa. Parte da partitura criada pelo compositor João Madureira pode ser apreciada na exposição e a apresentação está prevista para data de encerramento, na Igreja de São Roque.

As obras de Misericórdia surgem-nos em toda a exposição, às vezes de forma inesperada, como a pintura de Brueghel, cedida para o efeito pelo Museu de Nacional de Arte Antiga ou a pintura de Visitação de Vasco Fernandes do Museu Grão Vasco.

A ligação ao futuro, através da aposta no desenvolvimento das neurociências, a preocupação com os cuidados de vida em bairros carenciados em 1971, o apoio prestado a prisioneiros no séc.XVIII  e até uma seleção de fotografias de cozinhas económicas de 1959 são alguns dos documentos presentes nesta mostra, que ilustram o trabalho que tem vindo a ser desenvolvido pela SCML ao longo dos tempos.

A Visitação. O Arquivo: Memória e Promessa pode ser vista na Galeria das Exposições Temporárias da SCML (com entrada pela Igreja de S. Roque) de terça-feira a domingo, das 10h00 às 18h00 e segunda-feira das 14h00 às 18h00. Há visitas guiadas às sextas-feiras às 10h30 e 15h00 e domingos às 12h00 e às 15h00. A entrada é gratuita.

Reportagem de Tânia Fernandes

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