Morrissey no Coliseu de Lisboa

morrissey_01Reportagem de Tânia Fernandes. Fotografias gentilmente cedidas por Alexandre Antunes-Everything is New
 

As dúvidas dissiparam-se ontem às 21h30. Morrissey, o cantor e compositor cujo auge da carreira teve lugar há 25 anos atrás, quando liderou os The Smiths, ia finalmente pisar um palco da capital portuguesa. A espera foi longa, mas os seguidores compareceram. Ainda que o alinhamento andasse distante dos temas mais conhecidos, a receção foi calorosa. Volvidos todos estes anos, Morrissey apresenta-se, aos 55 anos, com um perfil mais volumoso e as arestas de vedetismo limadas. O público faz agora parte do seu espetáculo e não se escusou a aproximar das primeiras filas, esticando o braço e encenando a pose, frente ao batalhão de fotógrafos que marcou presença neste arranque da digressão pela Europa.

Vinha preparado para mostrar os temas do seu mais recente álbum, “World Peace Is None of Your Business”, mas sabia que não podia fugir totalmente aos marcos da carreira. E foram esses – poucos – momentos que trouxeram magia ao Coliseu de Lisboa.
O encontro foi marcado para as 21h00, mas sem primeira parte anunciada, Morrissey dedicou trinta minutos ao videotainment. Começou com um videoclip velhinho dos Ramones, deambulou por sonoridades mais antigas e suavemente começou a introduzir as batalhas que continua a assumir com toda a frontalidade, como a proteção dos animais, o ataque às touradas, bem como a personalidades como Margaret Thatcher ou a Rainha Isabel II. O mais recente ódio de estimação é manifestado com a entrada dos músicos em palco. A mensagem é tudo menos subliminar: “Fuck Harvest” aparece a letras garrafais, estampada em t-shirts. Não estamos a falar de vindimas, mas da editora com a qual o músico entrou em rota de colisão pouco depois da edição deste último álbum.

A cortina subiu ao som the “The Queen is Dead” e incendiou logo o público. A voz carrega o tom melancólico de sempre e encanta a plateia que apesar de nada teen, se estica para conseguir tocar no seu “Deus”. Remata com a primeira gafe da noite. Um “gracias” que o público não perdoa e lhe valeu valentes assobiadelas. Redimiu-se no seguinte, em que fechou com um largo “obrigado”! “Speedway”, “The bullfighter dies”, “Kiss Me a lot”, “Istanbul”,” World Peace is None of your business” e “Neal Cassday Drops Dead” foram alguns dos mais recentes temas que se fizeram ouvir antes de Morrissey apresentar a banda. Acompanharam-no Gustavo Manzur nas teclas, Jesse Tobias na guitarra, Matthew Walker na bateria, Solomon Walker no baixo e Boz Boorer (com quem toca há mais tempo) na guitarra.

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“Why did you come here?” pergunta, antes de deixar ouvir um solo de piano, a introduzir “Trouble Loves Me”. A voz de Morrissey impõe-se ao longo de todo o espetáculo. Ouvimos o cantor, mas também o compositor que tem mensagens para passar. E apesar dos novos temas retirarem pouco emoção do público, este deixa-se embalar pelas canções melodiosas.
O rei da melancolia sabe o que esperam dele e anuncia alto e bom som: “And now, because we must…”antes de avançar com “Hand in Glove”. O Coliseu parece ter acordado do estado de dormência e agita-se freneticamente. Morrissey continua com “Meat is Murder” não sem antes desferir violentos ataques à cadeia de hambúrgueres norte-americana. E para que não subsistam dúvidas quanto ao tema, a atuação é acompanhada de imagens chocantes, de todo o tipo de atrocidades que se cometem com animais.

O bálsamo chega logo a seguir ao encore: “Asleep” gera o coro da noite. Arrepia, pela proximidade ao registo sonoro . Com o público na mão, Morrisey despede-se com “First of the gang to die”. Assume a vedeta que nunca quis ser, despe a camisa e atira para o meio de público, que desce à fase da adolescência e se debate em jeito de feras na arena, por um pedacinho de têxtil do herói.
O rei não morreu. Veste-se de linho branco e tem um colar ao pescoço. Já não pendura ramos de flores no bolso de trás e encara o público de frente. A lenda arrefeceu, mas o carisma mantém-se. Há luzes que não desaparecem.

 

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