Monólogos Da Vagina Regressam Ao Palco Do Teatro Armando Cortez

Reportagem de Tânia Fernandes e António Silva

Monologos da Vagina

Conversas de mulheres, contadas por mulheres, mas que os homens vão querer ouvir. Monólogos da Vagina regressou, mais uma vez, ao palco do Teatro Armando Cortez. A linguagem pode não ser a mais alinhada com os bons costumes, mas o que revela no âmbito do prazer feminino, perdoa a moral.

Aqueles temas, de que as mulheres falam umas com as outras, na fronteira do “fica cá só entre nós” são discutidos de forma aberta e sem pudores. Apesar de ser uma plateia maioritariamente feminina, Paulo Sousa Costa, o encenador, diz-nos que este espetáculo “é sempre um workshop para os homens. Para as mulheres é um vivenciar das experiências que elas têm, uma partilha. Eu passo muito tempo a olhar para o público, a ver as reações e vejo sempre homens muito divertidos”.

A peça começa com um momento de brainstorm sobre o órgão sexual feminino em todas as suas vertentes. Os nomes que lhe chamamos, as preocupações que temos com a sua manutenção e funcionamento e até o que vestir.

O Elenco Atual

Marta Andrino, Paula Lobo Antunes e Teresa Guilherme são as atrizes que atualmente dão a cara (ou o pipi) por estas divagações. E passam depois para a interpretação de episódios, uns mais dramáticos e intensos e outros mais leves e divertidos de histórias reais de mulheres e da sua relação (boa ou má) com a sua sexualidade.

Marta Andrino e Paula Lobo Antunes conseguem mesmo, a determinado momento, cortar o registo de gargalhadas para nos colocar ao lado das mulheres que sofreram abusos e viram a sua feminilidade corrompida. “Eu acho que isto é contar uma história e uma boa história tem momentos tristes e momentos alegres. Estes monólogos são um pouco o recurso e essa viagem” conta-nos Paula Lobo Antunes, no final desta estreia. “As histórias são todas válidas e precisam de ser contadas. Mesmo aquelas menos boas. É preciso falar sobre violação. Por exemplo, a situação das mulheres abusadas, hoje em dia já se começa a falar, mas mesmo assim as pessoas ainda têm muito medo. Se calhar era bom começarem a partilhar mais”.

Marta Andrino acrescentou que “é desafiante podermos fazer essas passagens e não estar só a fazer rir. O humor pode ajudar, mas as pessoas não vão sair daqui indiferentes. Uma vez que a premissa deste espetáculo é de entrevistas a milhares de mulheres, não se podia eliminar histórias que se gosta menos de ouvir.”

Já Teresa Guilherme, que a maioria conhece do pequeno ecrã, tem aqui também espaço para desenvolver o que de melhor sabe fazer: interagir com o público. A plateia ilumina-se e, mesmo com as restrições à circulação entre cadeiras que atualmente se impõe, vem fazer as mais íntimas perguntas a quem pensava que vinha só ouvir monólogos. O seu grande à vontade e capacidade para fazer falar as pessoas torna este momento inesquecível. Quem passa pelo módulo de exercício prático de relaxamento, irá certamente, mais tarde, querer replicar esse momento com colegas de trabalho e outros conhecidos. Entre muitas gargalhadas, apostamos. Mas nada consegue ser igual ao que assistimos no teatro, com TODO o público a fazer a coreografia!

“Quando comecei a preparar este monólogo, tive a noção de que ia ser muito difícil para as pessoas perceberem que eu era outra pessoa” admite Teresa Guilherme. “Aconteceu-me até, de pessoas que me puxavam a dizer “Ó Teresa!”… não valia a pena estar a imaginar que não era a Teresa que estava aqui. Portanto, aquele momento é a Teresa que está aqui, com o texto de outra pessoa. É como se fosse o público, eu e a dona do monólogo. Aquilo não pode ser feito de outra maneira!”

Atuar em tempo de pandemia, com o público intercalado entre cadeiras, é uma realidade a que as atrizes já se habituaram. “Eu hoje senti-me como se não estivesse a acontecer nada. A energia sente-se e está lá de forma igual” refere Marta Andrino”. Teresa Guilherme, que integra o elenco desde janeiro de 2020 explica que “O que acontece nas nossas cabeças é que primeiro estranha-se, depois entranha-se!”. Conta-nos que em junho do ano passado, depois do primeiro confinamento “eu vinha à espera que as pessoas reagissem de uma forma diferente, que não se rissem, que não participassem, não batessem palmas. E não foi nada disso que aconteceu. A verdade é que foram os dez primeiros minutos e a partir daí percebi que havia uma grande entrega e até uma necessidade maior de participar. As pessoas agora falam mais e acabam por dizer mais coisas. Estão à vontade para se rir.”

Portas do Teatro Reabrem Depois Deste Segundo Confinamento

A sala encheu na primeira sessão, esta segunda feira, depois do confinamento, sendo que sala cheia, neste momento, corresponde a metade da lotação, com todas as pessoas sentadas de forma intercalada, na plateia.

Uma noite de alegria para Carla Matadinho, diretora da Yellow Star Company “É muito bom abrir as portas. Foi o segundo ano em que estivemos fechados no Dia Mundial do Teatro. Posso hoje finalmente festejar, porque festejar o teatro é isto, é ter salas abertas. Sabemos todos que atravessamos uma pandemia, mas sempre foi possível fazer teatro com o vírus por aí. Aqui são ambientes completamente controlados, é seguro”.

Monólogos da Vagina é uma adaptação do texto de Eve Ensler, baseado em entrevistas a mulheres. Todos os anos, um novo monólogo é adicionado para destacar uma questão atual que afeta as mulheres em todo o mundo. A peça pode ser vista no Teatro Armando Cortez, às segundas, terças e quartas-feiras, às 21h00. O preço dos bilhetes é de 20 euros.
Estão já agendadas duas datas para o Porto, no Coliseu Ageas, a 28 e 29 de maio, com bilhetes à venda entre os 15 e os 25 euros.

Há um espetáculo previsto para o dia 2 de julho de 2021, em Lamego, no Teatro Ribeiro Conceição. Os bilhetes encontram-se à venda pelo valor de 12,72 euros.

Há um espetáculo reagendado para o dia 20 de novembro, no Centro Cultural de Tábua, em Coimbra. Os bilhetes encontram-se à venda pelo valor de 20 euros.

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