MIMO Amarante: 15 Anos De Um Festival Que Abarca Cidades

Reportagem de Rosa Margarida (Texto) e Paulo Soares (Fotos)

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O Mimo é muito mais do que um festival, mas há falta de uma palavra que o consiga definir, talvez “Mimo” seja palavra que baste. Começou, em 2004, no interior das igrejas de Olinda, no Brasil, atravessou cidades, desembarcou no Rio de Janeiro em 2015 e um ano depois cruzou o Atlântico e desaguou no Tâmega. Amarante foi o seu berço português. Três anos depois há um Mimo que abraça a cidade e uma cidade que se (des)faz em Mimo(s)!

“Porque não Amarante?” é a resposta de Lu Araújo, curadora e diretora-geral do MIMO, quando questionada sobre o local escolhido para o Mimo luso. “Apresentada” a Amarante por um amigo, Lu Araújo achou a “cidade linda, com uma riqueza cultural e patrimonial muito simbólica e com um acolhimento ímpar”. Terra Natal de referências importantes para a cultura portuguesa, conhecida pela sua gastronomia, doçaria e vinho verde, a cidade de Amadeo Souza-Cardoso e Teixeira de Pascoaes é o “local ideal para o MIMO”. A ideia de “construir um festival de raiz, um festival numa cidade pequena, um festival numa cidade sem tradições de grandes eventos” foi um desafio para Lu e, é hoje, uma aposta vencedora.

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Tratando-se de um festival que se espalha pela cidade, que “ocupa” os seus mais belos cenários, que lhe dá vida e que se faz de paisagens, de arte e de gente, Amarante, a Igreja S. Gonçalo, a Igreja de S. Pedro, a Igreja de S. Domingos, a ponte de S. Gonçalo, o Rio Tâmega, entre muitos outros locais são o “recinto” de um festival “inovador, revolucionário, gratuito, inclusivo e culturalmente enriquecedor”.

O MIMO alia música, cinema, poesia, educação e arte, num “Festival de alto padrão, na vanguarda da música, com propostas artísticas inovadoras”. “A singularidade de um festival que vai contra a ordem estabelecida”.

A pergunta de Lu Araújo é simples: “Será que as pessoas querem pagar para ir a recintos fechados verem sempre o mesmo género de espetáculo?”. A resposta ficou perdida no ar ou talvez fosse apenas uma pergunta de retórica. Fica a certeza de que o MIMO é um “lugar de diferença, apostado na novidade e na qualidade e no desejo de se ampliar, de se renovar, de se reconstruir” a cada ano que passa.

3ª Edição do MIMO Amarante

“Dois ouvidos é pouco” é o que fica no ouvido de quem, por estes dias, passou por Amarante. De 20 a 22 de julho, a cidade acolheu a 3ª edição portuguesa do Mimo, que conta, por Terras de Vera Cruz, 15 anos de existência – uma data que se celebra dos dois lados do Oceano.

O Museu Amadeo de Souza-Cardoso e o Parque Ribeirinho foram palcos de “apresentações de artistas consagrados, novos nomes e encontros originais, do jazz à música erudita, da música popular à eletrónica”.

Marta Pereira da Costa – a primeira mulher guitarrista profissional de Fado; a grande dama da música amazónica”, Dona Onete; os Dead Combo, galardoados, em 2015, com o Globo de Ouro de melhor banda; Shai Maestro Trio, do pianista israelita Shai Maestro, do baixista peruano Jorge Roeder e do baterista israelense Ziv Ravitz; Almério, um dos destaques da nova geração de músicos brasileiros; o portuense Rui Veloso; o cantor e compositor pernambucano Otto; A dupla Moacyr Luz, no violão de 6 cordas e Carlinhos, no de 7 cordas o jazz de Hudson com Jack Dejohnette, John Scofield, John Medeski & Scott Colley foram alguns dos artistas musicais que passaram – e encantaram – no MIMO.

Nota para o concerto na Igreja de S. Gonçalo, da Orquestra Chinesa Cheong Hong de Macau, com “um repertório variado e eclético, com temas de música tradicional chinesa, temas de bandas sonoras de séries televisivas e temas portugueses com orquestração para instrumentos chineses”.

Da música para o cinema, “dedicado a produções inéditas que tenham a música, as personagens e as suas histórias como tema”, com exibição de ficção, animação e documentário, no cinema Teixeira de Pascoaes ou ao ar livre, no Museu Amadeo de Souza-Cardoso. Os documentários Clara Estrela e Fevereiros, a longa metragem A Great Day in Paris de Michka Saäl; o ensaio poético Entre o Traço e a Luz e Elis, a vida da maior artista brasileira, Elis Regina, numa cinebiografia realizada por Hugo Prata foram algumas das exibições desta 3ª edição

O MIMO fez-se também com um Programa Educativo, promovendo “workshops, master classes, palestras e oficinas que se destinam a estudantes e profissionais de música”, sendo as aulas conduzidas pelos artistas convidados e um Fórum de ideias, um convite ao debate, a reflexão e à partilha de conhecimentos das diferentes expressões culturais.

A poesia da brasileira Hilda Hilst e a “Aflição de ser eu e não ser outra” provocaram uma Chuva de Poesia no Largo de São. Gonçalo

Aflição
Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)
Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.  

Hilda Hilst.

O Parque Florestal de Amarante acolheu a Recreação, “atividades lúdicas com conteúdo pedagógico e musical” para o público mais jovem do festival e tempo ainda para o Roteiro Cultural, uma oportunidade única para (re)descobrir as paisagens naturais, os pontos históricos e a cultura e património da cidade.

Um MIMO que cruza diferentes géneros de arte, destinado a todos os grupos etários e sociais e apostado em fazer da cultura um bem comum. O número de visitantes assim o exige.

15 Anos de MIMO

O MIMO abarca, este ano, exposições. A primeira Cenários – MIMO 15 Anos, patente durante os três dias do evento, convidou os visitantes a uma viagem pelas cidades anfitriãs do evento no Brasil. A segunda exposição Os Modernistas. Amigos e Contemporâneos de Amadeo de Souza-Cardoso – Coleção Millennium bcp, também patente nos três dias do festival, poderá ainda ser visitada de 24 de julho a 28 de outubro.

Os Modernistas afirmam-se na arte portuguesa nas primeiras décadas do século XX. Pretendem contestar as ideias sobre beleza e a sua representação na pintura; desprezam a aprendizagem nas Escolas de Belas-Artes que, na sua opinião, comprometia a liberdade e a criatividade de cada um; procuram encontrar fontes de inspiração fora dos museus, por exemplo na escultura africana, nas artes populares ou nas estampas japonesas que não usavam a perspectiva para representar o espaço.

A 3ª edição do MIMO Festival teve como promotores a Câmara Municipal de Amarante e o patrocínio da Santa Casa Misericórdia de Lisboa, que assina o programa MIMO SEM BARREIRAS, que tem como objectivo facilitar a acessibilidade, a integração e a mobilidade de pessoas com necessidades especiais ou mobilidade reduzida, durante o festival em Amarante. A Fundação Millennium bcp é mecenas do Programa Educativo.

MIMO em Portugal e no Brasil

O MIMO, do interior das igrejas de Olinda para o Mundo, passou por Amarante e segue para o Brasil. Paraty alberga o festival de 28 a 30 de setembro; seguem-se o Rio de Janeiro, de 15 a 17 de novembro e São Paulo, de 19 a 20 de novembro. A edição de 2018 termina onde tudo começou! Olinda recebe o Mimo de 23 a 25 de novembro.

Um protocolo assinado com a Câmara Municipal garante o Mimo em Amarante até 2021. “A cidade cresceu com o Mimo e o Mimo promete crescer com a cidade”. As ruas amarantinas e as suas gentes “vestiram-se” de Mimo!

“No MIMO Festival, o público descobre as novidades e sai de Amarante enriquecido. É isso que vamos continuar a fazer em 2019, dias 26, 27 e 28 de Julho”, afirmou Lu Araújo. 

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