Mehldau, Grenadier E Ballard Ou Uma Crónica Sem Título Sobre Um Trio Que Dispensa Títulos

Por Daniel Carvalho

Os bilhetes para o Grande Auditório do Centro Cultural de Belém esgotaram para ver um habitué dos palcos portugueses. Brad Mehldau regressou, desta vez em trio, com Larry Grenadier no contrabaixo e Jeff Ballard na bateria. O trio juntou-se para a gravação do mais recente álbum, Blues and Ballads. Trata-se do quinto desta parceria, que começou em 2005 com Day is Done, que marca a estreia de Jeff Ballard aos comandos da bateria deste trio, substituindo Jorge Rossy.

A receita é simples e muito pouco diferente daquilo que já temos visto inúmeras vezes: versões soberbas de um conjunto de músicas clássicas. Do bebop intenso de “Cheryl” de Charlie Parker ao tom bluesy das dores de amor de “Since I fell for you”, popularizado por Lenny Welch, passando pelo famosíssimo “These foolish things”. Nas também habituações incursões pelo mundo da pop/rock, os homenageados são, desta vez, os Beatles, através do tema “And I love her”.

Nunca é pêra doce pegar em temas deste calibre. Porque são o oposto de mares nunca dantes navegados, são o estreito de Malaca ou o Canal do Suez. Talvez seja esta – e perdoem-me o pleonasmo intencional – a marca mais marcante de Mehldau e deste trio: a reinvenção da roda. Ir além da Taprobana. Isto é, conseguir reinventar aquilo que já parece mais do que inventando, totalmente exaurido, dando uma certa imprevisibilidade a algo que, de tão trilhado que já foi, não deveria, pela lógica das coisas, gerar nada de novo.

E porém gera, diria Galileu Galilei, se lhe dessem a ouvir esta gravação sem correr nenhum risco de ir parar a uma fogueira inquisitória. E a forma como essa imprevisibilidade é atingida é outro ponto de destaque. Em muitos momentos, o jazz – a música? – avançou de mãos dadas com a complexidade, com a exigência, com a sofisticação. É, afinal de contas, um sentido que parece natural, não só na arte como, também – melhor exemplo será difícil – na ciência. Assim como em coisas mais mundanas como carros e telemóveis. Não se trata de uma verdade absoluta, claro: noutras alturas, deu um passo à frente dando, possivelmente, um atrás: tirando o pé do acelerador, voltando às raízes e explorando a simplicidade – penso no jazz modal, por exemplo. Nisso e no ecrã táctil do iPhone. Há quem ao chame genericamente ao processo kiss it simple, stupid.

É esta última abordagem que este trio parece empregar. Digo trio embora, a César o que é de César, muito deste processo é da inteira responsabilidade de Mehldau: a capacidade de conseguir tirar tanto de uma estrutura tão simples, sem esgotar, sem parecer repetitivo, redundante ou aborrecido. Tanto sumo a partir da mesma laranja. Que muitos poderiam, à partida, considerar seca e ressequida. Quase parece contradizer a expressão que afiança a necessidade de ovos para fazer omeletes.

Mas regressemos ao auditório, onde os músicos entretanto subiram ao palco, Mehldau fazendo as suas típicas vénias, o “thank you” que conseguimos ver-lhe nos lábios mas não ouvir. E começaram por tocar aquilo que, mais lá para a frente, Mehldau irá designar por “new music”.

E música nova porque, para a primeira parte do set, o trio reserva-nos essencialmente o futuro, temas novos da autoria do pianista. Alguns títulos: “Gentle John”, “Strange gift”. Outros casos em que, de tão recentes, como o terceiro tema da noite, as composições são referidas como “no title yet”. E ainda uma interessante dedicatória ao guitarrista alemão Wolfgang Muthspiel, através do tema “Wolfgang’s waltz”, que consta do álbum “Rising Grace”, em que tanto Mehldau como Grenadier participaram.

Após este primeiro bloco de música maioritariamente inédita, temos a primeira e única incursão pelo álbum “Blues and Ballads”: o trio presenteia a audiência com o tal “And I love her”. A versão ao vivo é lindíssima, com um trabalho notável de Ballard. Surpreende mesmo para quem, como eu, já ouviu a gravação do tema de Lennon e McCartney inúmeras vezes. É caso para dizer “we do love it”.

Voltamos a outro caso de uma composição órfã de título, a segunda do género da noite. Mehldau afasta o corpo do piano, em direcção ao público, apenas a mão esquerda a tocar as teclas, atestando a capacidade do pianista de explorar um mesmo motivo até ao limite, até à exaustão, enquanto deixa o espaço suficiente para encarregar a secção rítmica de ocupar uma posição dianteira na condução.

“We appreciate your good energy. Good energy is very important these days”, diz-nos Mehldau antes de se virar novamente para o teclado e iniciar o “Si tu vois ma mère” de Sidney Bechet, o primeiro saxofonista de jazz a atingir notoriedade. Se a meio do tema o solo de Grenadier já teve o condão de arrancar uma estridente ovação, o final com Mehldau totalmente sozinho durante minutos é um dos pontos altos da noite. À primeira saída de cena dos três músicos segue-se o primeiro encore com “West Coast Blues” e, após nova saída, um segundo encore frenético, que termina com uma chases diabólicos, que vão vendo a dimensão reduzir-se progressivamente ao mesmo tempo que a intensidade aumenta.

Não é apenas Mehldau que está a lutar com os títulos de algumas das suas mais recentes composições. Eu próprio confesso que fiquei sem palavras.

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