Massive Attack Em Cine Concerto Provocador

Por Tânia Fernandes

Massive Attack
Massive Attack

Não foi para reviver memórias de dias felizes ao som de Mezzanine que os Massive Attack chamaram as pessoas ao Campo Pequeno. Foi para lhes dar um valente abanão visual e sonoro, e deixá-las a refletir sobre o seu papel na sociedade e o que cada um pode fazer para mudar.

Este é um concerto feito só com os temas de um dos seus cinco álbuns – o mais bem sucedido comercialmente – ao qual acrescentaram uma mão cheia de covers. Mezzanine chegou ao grande público em 1998, depois de um processo criativo turbulento, que resultou na saída de Andrew Vowles (Mushroom), um dos elementos.

Robert Del Naja (aka 3D) e Grant Marshall (Daddy G) deram continuidade a esta linha musical original, com um peso interventivo cada vez maior. O concerto Mezzanine XXI, que trouxeram a Lisboa, é o seu olhar crítico sobre a evolução do mundo. Uma posição irónica sobre o que estamos a aceitar, a projeção de imagens da realidade mais cruel que nos chega através dos noticiários e a inércia de quem opta por passar o dia a trocar e-mojis em redes sociais.

Os temas de Mezzanine foram trabalhados e chegam-nos agora em versões diferentes, alguns mais fortes, outros sem perder a doçura inerente. O passado, neste concerto, encontra-se nas versões de temas que recriaram, a revelar um pouco das suas influências. Começaram com “I Found a Reason” de The Velvet Underground, depois de quase aniquilarem o público com luz estroboscópica, branca e vermelha, numa ruidosa introdução sonora. Enquanto ouvimos que alguém procura razões para viver e para cantar, engolimos sequencias de imagens da família Real Britância, Sadam Hussein, Tony Blair ou Britney Spears.

Todo um espetáculo visual foi criado por Adam Curtis, especialista em documentários da BBC. A música junta-se às imagens com o propósito de nos fazer refletir sobre o estranho mundo que todos temos vindo a construir.

Não há uma única troca de palavras com o público, do início ao fim do concerto. O alinhamento segue a ordem prevista. Não há uma pausa imprevista ou um encore sequer. Como numa sessão de cinema. O fumo e os fortes focos de luz no palco revelam apenas as silhuetas dos músicos (à semelhança do que havia acontecido na anterior passagem por Lisboa ) e os mais iluminados acabam por ser os convidados muito especiais que vêm dar um brilho especial à sessão: Horace Andy, cantor e compositor com raízes na Jamaica, que tem colaborado com a banda. Juntou aqui o seu timbre único aos temas “Man Next Door”, “See a Man’s Face” e “Angel”. A outra figura, recebida com ruidoso aplauso foi Elizabeth Fraser (Cocteau Twins), que juntou a sua voz angelical às canções “Black Milk” e “Teardrop”, o ponto alto da noite. Esteve também presente num perturbador “Where Have All the Flowers Gone?”, uma cover da música de Pete Seeger, que trouxe também as mais brutais imagens da noite, com videos quase parados de guerra, cadáveres e sangue. Flores decapitadas.

As influências da banda passaram também por um intenso “10:15 Saturday Night” (The Cure), uma versão arrepiante de “Bela Lugosi’s Dead” (Bauhaus), o punk rock dos Ultravox com “Rockwrok” e o desconcertante “Levels” de Avicii.

O público manteve-se atento durante todo o concerto. Nas bancadas ninguém se levantou. Neste cine concerto apupou-se Donald Trump, ignorou-se Putin e engoliram-se verdades duras. Apelou-se ao espírito de união – “one people” – e incutiu-se esperança – “podes ser tudo”.

O concerto repete-se, esta noite, com a sala há muito esgotada. Quem acha que tem o passaporte carimbado para recuar na linha do tempo, leve o colete salva vidas.

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