Mark Knopfler no Templo dos Poetas

Mark Knopfler
Mark Knopfler

Reportagem de José Magalhães (texto) e Joice Fernandes (fotografia)

Chegámos ao estádio municipal de Oeiras facilmente. A dica é esta: estacionar no parque do Centro Comercial, sair a pé, entrar no Parque, entrar no estádio (ai de quem cair na tentação de querer estacionar mesmo em frente da Festa!).

Olhei e vi ordeiramente sentadas, milhares de pessoas. Aguardavam pacientemente e – estranha coisa – sem barulho. Um estádio educado, sem vuvuzelas, nem gritos de claques.
Rapazinhos com ar de ghost-busters despejavam a esmo copos de cerveja gelada a partir das mochilas vermelhas com mangueiras distribuidoras (uma invenção genial de um lusitano).
Paralela e concomitantemente, num balcão perto do palco,  escorriam  para copos hectolitros de gin e outros líquidos pesados, sem repercussão aparente no comportamento coletivo.

Uma linha de assistentes fardados cumpria com eficiência a função de guiar às cadeiras as várias categorias de espectadores: VIP’s, LIPs  (less important mas sentados à frente) e depois pessoas comuns,  nas centrais traseiras, laterais, etc). Uma massa humana que nem empilhada nas árvores caberia no cenário do Jardim do Palácio do Marquês de Pombal, onde, no mesmíssimo quadro do Edpcooljazz assisti, há anos, a um memorável concerto da Ana Moura.

Atrás do palco, a silhueta intrigante do Templo dos Poetas, iluminado, talvez indiano, talvez só extravagante. Disse-me o presidente da Câmara que tem dentro a exposição sobre Darwin e está a caminho de ser Museu da Ciência. No alto, a Lua quase cheia, a caminho de ser Azul (esta é só  para quem sabe o que quer dizer a canção Blue Moon).

Uma noite de julho

Confesso que ir ouvir o Mark Knopfler, nascido em 1949,  não seria a minha primeira prioridade para a noite do dia 27 de julho. Aceitei o convite do C&H com uma simpatia morna e mesmo um pensamento reservado (este: “só me convidam para ver velhas glórias cantar para me poder maravilhar pelo facto de não lhes saltar a dentadura nem tremerem os dedos. Se fosse a Shakira, pediam crónica a outro/a”). Afastei com vigor essas nuvens tóxicas e as suspeições infamantes, para me concentrar em andar como uma barata tonta pelo recinto até ao início do espectáculo, tropeçando nos mais diversos interlocutores: autarcas, jornalistas, artistas, dirigentes da Administração Pública – de diversas gerações.

Toda a malta estava com um ar de missa verdadeiramente impressionante. Ninguém esperava surpresas, toda a gente parecia saber o que ia acontecer e, pelos vistos, era esse o segredo de tanta serenidade. Tenho a certeza que o  Papa Francisco excitaria mais as massas do que Mark, o  sexagenário escocês filho de um pai húngaro marxista, ateu e judeu.

Quando entrou  no palco o vento soprava forte e temi o pior.
“Goooooodd evening, ladies and gentlemen!!!!” (exatamente como em toda a parte). Fleumático e profissional, Knopfler iniciou a cerimónia em suave e  pouco reconhecível toada. Olho o palco e, tenham paciência, acho a média etária carregada. Vestidos com jeans e camisas abertas sobre polos e T-Shirts, poderosos nas teclas, cordas e sopro. Só à terceira (a balada Privateering), Mark perguntou ao povo “everybody ok?!!!” e toda  a gente se ergueu contra o vento para a primeira standing ovation.

Os muitos britânicos presentes devem ter topado que na parte final da canção se fala das aventuras da fauna descrita pelo Autor, recheadas de mulheres bonitas e vinho fino da Madeira.

Mark Knopfler
Mark Knopfler

I lay with pretty women
To drink Madeira wine
To hear the roller’s thunder
On a shore that isn’t mine
Privateering, we will go
Privateering, Yoh! oh! ho!
Privateering, we will go
Yeah! oh! oh! ho!

Mark nunca  teve voz de Pavarotti ou sequer Mercury, mas sai-se bem como se estivesse num barco pirata e nós com ele a sonhar com tesouros e pilhagens. Entra o som céltico, liderado pela flauta, superada depois pela oitava guitarra empunhada por Mark.

A quinta canção tem um poema  de ajuste de contas e despedida num mundo rural perdido no tempo e no espaço, de que só fica no ouvido o refrão (So bad!):

Going into Tow Law for what I need
Chain for the ripsaw, killer for the weed
Dog’s at the back door leaving me
Don’t feed him Jack, don’t wait up for me

Going into Tow Law to fuel my fire
Shells for the twelve and razor wire
Dog’s at the back door leaving me
Don’t do Jack, don’t wait up for me

So bad, so bad
So bad, so bad

I’m going into Tow Law to have my fun
Don’t get me wrong, you were the only one
Behind my back Lord, you made a fool of me
Don’t do Jack, don’t wait up for me

[satellite auto=on caption=off thumbs=on]

 

You Want the Same? “Yes!”
Sucesso tão estrondoso que Knopfler quis que o público confessasse o que queria: “You want the same?!”. Quereis o costume, malta, aquelas coisas de antigamente?

Sem dúvida, porque há senhoras com grande maturidade a baloiçar ancas como nos tempos em que havia Dire Straits. Quando Mark declama a sua deliciosa versão de Romeu e Julieta,  os jovens à minha frente mergulham nas respetivas bocas, uma opção que os privou de atinar naquela letra ou talvez não (podem ter executado literalmente o  “I can’t do anything except be in love with you”):
can’t do the talk like they talk on tv
And I can’t do a love song like the way it’s meant to be
I can’t do everything but I’d do anything for you
I can’t do anything except be in love with you

And all I do is miss you and the way we used to be
All do is keep the beat and bad company
All I do is kiss you through the bars of a rhyme
Julie I’d do the stars with you any time

Pensando bem, os Dire Straits dissolveram-se em 1995, estava Portugal há dez anos na CEE. Como era novinho o Mark e o mano.
Nestas décadas comprou uma enorme quantidade de guitarras  (acumulou uma coleção formidável, todas as espécies, todas as cores, formatos usuais e extravagantes). Há um técnico que as carrega do estojo para o palco, mudando de instrumento até durante a mesma canção.
Ponho-me a pensar que escolher um bicho assim deve ser coisa tão complexa como selecionar o torpedo ideal  para submarinos (desculpem não poder tirá-los do campo de consciência e dos orçamentos de Estado dos próximos 40 anos!).

Olhei a Lua com gratidão e felicitei-me por poder estar ali a testemunhar que vale a  pena ouvir  o proveito que Mark Knopfler  tira daquelas cordas.
O  vento continuava a soprar  no estádio. Estávamos na oitava canção.

Uma Playlist reconfortante

Seguiram-se mais 7, posto que a  banda saiu do palco, com toda a gente ciente de que voltaria. Não me atrevo a criticar a playlist banal. Por mim teria querido ouvir mais cedo os dois encores, executados com a noite já honestamente ganha.

O primeiro (So far Away) retroprojetou-me a 10 de julho de 1985 quando o ouvi no estádio de Wembley, ele com fita na cabeça, eu sem fita, mas jovem deputado em início de mandato na oposição. As imagens são inequívocas.

A última foi, com acerto, o Hino dos hinos, majestoso como sempre: Local hero.
Confortados com os santos sacramentos, os milhares de crentes de todas as convicções e faixas etárias escorreram pelas ruas e sumiram.

Comparei essa doçura com a bestialidade das claques à saída de um derby futebolístico. Aqui a paz satisfeita dos massajados por via auditiva; ali as hordas em luta, obrigando o Estado a mobilizar doses industriais de polícias (conta paga pelo contribuinte!).

Chegar a casa foi  fácil.

Mark Knopfler
Mark Knopfler

Para os avozinhos  no palco foi mais um concerto. Só faltam 2 para regressarem a casa e abraçarem os netos. Um tour quase igual ao anterior (Privateering Tour). Como sei? Fui ao blog de um dos acompanhantes que fez uma espécie de diário da  tournée.

Escreveu  Bennett:

«Fizemos  um show ao ar livre em Oeiras, um subúrbio a 15 minutos de Lisboa. Fomos alertados antes de  chegarmos que o vento estava a soprar forte. A cobertura de topo do palco  teve  de ser removida para evitar que se tornasse uma espécie de vela. Quando chegámos ao local, o vento soprava como um louco. Glenn não podia usar o  baixo de corda como não havia lugar para colocá-lo para baixo sem começar a girar forçado pelo vento. Pelas 9:30 quando subimos ao palco o vento acalmou-se um pouco, mas foi explodindo de forma constante ao longo de todo o show. Era noite fria e com o vento sentíamos frio. Difícil de acreditar que é julho.

Foi assim que tivemos um outro grande show  com cerca de 12.000 pessoas descontroladamente entusiásticas. Depois regressámos ao hotel  e tomámos um par de bebidas  no bar.
Estamos muito perto do fim do Tour agora,  com apenas dois shows para fazer. Sábado à noite todos nós vamos  dormir nas nossas próprias camas novamente».

Em suma: para eles, os tocadores, aquele público foi uma gota de água num mar imenso de gente da Europa desunida. Tornaram-se, no meio de tanta diversidade, um ponto em comum.

Bem hajam, porque valeram bem o que lhes pagámos, coisa que não podemos dizer, por exemplo, do atual Conselho Europeu.

 

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