Lulu Chega Ao Palco Do TeCA A 13 De Junho

A segunda produção própria do Teatro Nacional de São João (TNSJ), Lulu, estreia no dia 13 de junho no Teatro Carlos Alberto (TeCA), pela mão do encenador Nuno M Cardoso.

São recuperados, para este espetáculo, cinco dos sete atos de Espírito da Terra e A Caixa de Pandora, as famosas Tragédias de Lulu, numa tradução de Aires Graça.

Baseado na obra de Frank Wedekind, o espetáculo apresenta uma personagem totalmente amoral, adjetivado por Edward Bond como uma história “Profética do Capitalismo”: a riqueza e a morte num antagonismo com a pobreza e a sobrevivência. Lulu, resgatada da pobreza aos 12 anos por um proxeneta, vê o seu corpo como meio de sustento, capitaliza o que é – ou que os outros queiram que seja – mas crê-se sempre em desvantagem.

A acção da peça decorre num grande “circo” de paixões, desamores, identidade e sobrevivência.

Nuno M Cardoso encerra com esta peça a trilogia sobre a representação da mulher, baseada na dramaturgia alemã – iniciada com Gretchen, de Goethe (2003) e Emilia Galotti, de Lessing (2009). O encenador deixa, desde logo, o aviso: “Lulu não oferece qualquer oportunidade de redenção ou esperança”. A personagem principal, ou melhor, as várias personagens da personagem que dá nome à peça, acaba por ter o mesmo destino de quase todos os homens que cruzaram o seu caminho, a morte e a destruição.

Fomos assistir ao ensaio desta produção e escrever sobre Lulu, a peça e Lulu, a personagem afigura-se como uma difícil missão.

Não se ouvem as pancadas de Molière, nem se içam panos, mas respira-se seriedade, dramatismo e empenho. No breve excerto apresentado, somos transportados para Paris, a burguesia do século XX em festa. Lulu, representada por Vera Kolodzig, surge aqui no seu auge, se algum pináculo houve na sua vida. Champagne, jogo, sedução, chantagem, mentiras, traição e sexo são alguns dos ingredientes.

O cenário dourado e a sumptuosa escadaria, a música eletrizante e as velozes interações, transportam-nos de Lulu para a Condessa, da mulher que encarna várias mulheres para todos os que se “alimentam” dela, os que ela crê “alimentar”. Atores entrem e saem, falas copiosamente repetidas, personagens invadem o palco. A vida é, naquele cenário, um jogo de poder. Embriagados, decadentes ou assoberbados, todos abandonam o palco. Pierrot, fio condutor da peça, figura da commedia dell’arte, retrato de Lulu, queda-se prostrado no palco.

Conta-nos o encenador que este espetáculo é “Uma ideia com mais de 20 anos”. Nuno foi tomando conhecimento, ao longo do tempo, das “várias versões de Lulu”. Decidiu representá-la, após tradução, revisão, escrita e reescrita.

Lulu é, antes demais “muitas mulheres”. Por isso, no palco, lhe dão vida duas atrizes (Vera Kolozig e Catarina Gomes) e uma bailarina (Sara Garcia), encarnando diferentes graus de maturidade. Quantas mulheres vivem dentro de uma mulher?

A acção desenvolve-se em três cidades europeias: Berlim, Paris e Londres. Cada uma das cidades delimita uma fase de Lulu e apresenta uma diferente Lulu: dos casamentos às mortes dos maridos, dos nomes que adota à imagem que cada marido cria, da chantagem e do sexo à decadência e prostituição e, por fim, a morte da protagonista.

Nuno procurou “retirar a ideia do bem e do mal, a vitimização, a ideia de poder e manter apenas, ainda que condicionada, a liberdade de agir e de ser. Por isso, o confronto com a sociedade e a morte vista como libertação maior”. Numa escala gradativa até à posterior queda, que os cenários vão acompanhando, é possível visualizar o(s) percurso(s) de Lulu. Uma mulher que luta contra a dependência económica e a condição de sexo fraco, com adulteração até mesmo do próprio nome, para vestir a pele que a sobrevivência a obriga a usar. “Nunca neste mundo quis parecer outra coisa senão aquilo por que as pessoas me tomavam, e nunca neste mundo as pessoas me tomaram por outra coisa senão por aquilo que sou”, desabafa Lulu.

A peça, para maiores de 16 anos, vai estar em cena no TeCA, no Porto, de 13 a 22 de junho e de 27 a 30 desse mês: quarta e sábado às 19h00; quinta e sexta, às 21h00 e domingo, às 16h00. No dia 14 de junho haverá conversa pós-espetáculo com encenador e atores e no dia 17 de junho, a récita inclui tradução em Língua Gestual Portuguesa. O preço do bilhete é de 10 euros e pode ser adquirido no local e online.

Nota ainda para o lançamento do livro que reúne as peças Espírito da Terra e A Caixa de Pandora, traduzidas por Aires Graça, integrado na coleção TNSJ/Húmus.

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