Living In Extraordinary Times Pela Mão dos James

Por Ana Filipa Correia (Texto) / Joice Fernandes (Fotos)

James
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Há algo de religioso no concerto que os James deram ontem à noite no Coliseu de Lisboa. Não sei se foi da imagem do vocalista, Tim Booth, uma presença imponente em palco, com a sua túnica e calças largas a fazer lembrar um pregador de um qualquer culto religioso, se foram os seus movimentos ondulantes ou o dançar frenético ao ritmo da música e ao pulsar das luzes que nos fazia lembrar quase um exorcismo. Ou talvez tenha sido da entrega, total e honesta com que a banda presenteou o público durante quase três horas.

Os James estão em digressão com o seu último álbum, Living in Extraordinary Times, uma tour que começou o mês passado no Reino Unido e culminou a noite passada em Lisboa, no Coliseu dos  Recreios, depois de no dia anterior terem atuado no Porto. Living in Extraordinary Times é o 15º álbum de estúdio desta banda inglesa cuja carreira já se prolonga por quase quatro décadas. Com canções vigorosas e urgentes, com uma forte mensagem social e de reflexão pessoal, este álbum foi não só muito bem acolhido pela crítica, como mereceu o carinho do público presente no Coliseu dos Recreios.

A tradicional bande de apoio dos James foram….os James. Em versão acústica, com um conjunto de 7 músicas, a primeira parte do concerto assenta na potente voz de Tom Booth, que ainda de blazer vestido nos dá os primeiros sinais da profunda experiência a que nos vai conduzir esta noite. “Hello”, “Broken by the hurt” e “All I’m saying” – esta dedicada à amiga Raven que faleceu de cancro – ou “Pressure’s on” embalam-nos numa viagem introspetiva em que só a música nos pode redimir.

Com a versão acústica de “Sit down”, ouvem-se as primeiras palmas a marcar o ritmo naquela que foi a primeira entrega do público, num coro de vozes a acompanhar a conhecida canção dos James. Um público, aliás, que foi parco em manifestações, guardando-se para as canções mais populares do alinhamento –  “Just like Fred Astaire”, “Born of frustation”, “Getting away with it (all messed up)” ou “Laid”. Muita gente em meu redor pareceu sempre mais preocupada em atualizar o feed do Instagrama ou o Facebook do que verdadeiramente se entregar ao espetáculo.

A parte acústica contou ainda com “I Wanna Go Home” e “Just  Like Fred Astaire”. Os James despediram-se, com um humor depreciativo, anunciando que a seguir atuavam os James, uma banda um pouco arrogante da qual já tinham sido fãs – nunca devemos conhecer os nossos ídolos, foi o conselho que Tim Booth nos deixou.  

Antes da parte eletrónica do concerto, ouve-se o tradicional, mas inútil, anúncio de que não é permitido qualquer registo áudio, vídeo ou fotográfico do concerto. Já era altura de trocarem este anúncio por um objetivo mais modesto – explicar que não vale a pena filmarem ou fotografarem com o flash ligado – a luz não vai fazer diferença nenhuma e só perturba (bastante!) quem está a tentar ver o concerto. Fica a sugestão.

Os James regressam, agora com todo o potencial elétrico dos instrumentos, com uma forte percussão a marcar o início de “Hank”, a faixa de abertura do último álbum, uma letra forte e socialmente engajada (enquanto Tim Booth cantava “Black Lives Matter Shoot on Sight”, alguém ao meu lado percorria o feed do Instagram). Seguiram-se, do mesmo álbum, “Extraordinary Times” e “What’s it All About”, com uma reacção um tanto fria do público, que estava ali claramente para ouvir os êxitos mais conhecidos dos James.

Com “Tomorrow”, Tim Booth aventura-se pela primeira vez para fora do palco, caminhado sobre as colunas e pelas bancadas do Coliseu. De onde eu estou sentada, parece caminha sobre as águas, se as águas fosse pessoas de braços erguidos e telemóveis apontados. Numa das incursões pelo público – durante a performance de “Born of Frustation”, Tim Booth chega mesmo a pegar num câmara espetada em frente ao seu rosto, vira-a para o espetador e finge atirá-la fora. Numa nota de redenção, uma senhora mesmo ao meu lado teve oportunidade de lhe colocar a mão no rosto, verdadeiramente emocionada, num momento que não teve direito a selfie. A religião dos James talvez não tenha chegado a todos, mas chegou aos suficientes.

“Leviathan” e “Sound” fecham o alinhamento, não sem antes, como num momento de magia, enquanto os nossos olhos se distraíam com o que se passava no palco, o trompetista aparece nas galerias, percorrendo-as, para alegria de um público que nunca espera estar tão perto dos seus artistas. Tim Booth acaba o concerto mergulhado na multidão, passando por cima de cabeças à força dos braços, sem seguranças, numa entrega total e completa. Agradecem ao público uma noite muito importante – é o último concerto da tour europeia, até porque a última viagem a Lisboa tinha sido….vamos escrever, decepcionante.   

O encore traz-nos “Attention”, “Come Home”, “Many Faces” – esta última permitindo um fim salvífico para o público. A banda em silêncio, no palco, e o Coliseu a saltar, a bater palmas e a cantar:

There’s only one human race
Many Faces
Everybody belongs here

(talvez mesmo as pessoas que passam os concertos ao telemóvel). “Laid” fechou o espetáculo num fim merecido para os James, que se entregaram completamente num concerto em que mereciam um melhor público.

A esta leg europeia da digressão, segue-se a tour nos EUA e Canadá e a temporada dos festivais de verão. Em Portugal, voltam a atuar a 13 de setembro no Parque da Pasteleira no Porto.

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