Uma Homenagem Ao Rock Feita Pelo Jazz Nos Jardins Do Instituto Goethe

Por Daniel Carvalho

O jardim do Instituto Goethe abriu as portas para receber mais uma edição do Jazz im Goethe Garten (JiGG para os amigos), anfitrião de um total de oito concertos, nos finais de tarde de terça a sexta-feira.

A programação – cuja responsabilidade é de Rui Neves, que também dirige o Jazz em Agosto da Fundação Calouste Gulbenkian – trouxe, como é hábito, as novas tendências e a vanguarda do jazz moderno e contemporâneo. Este ano, a organização privilegiou os trios – formação mais representada – mas também duos de pianos e quartetos, com músicos de diversas nacionalidades: Espanha, Suíça, Áustria, França, Itália, Luxemburgo, assim como instrumentistas alemães e portugueses.

Sem nenhum desprimor para as demais bandas do festival, aqui fica um destaque a dois projectos que, de formas distintas, prestaram uma interessante homenagem a dois “power trio” emblemáticos da música rock.

O primeiro foi o projeto austríaco, embora composto por músicos de diferentes nacionalidades, Hang ‘Em High (o mesmo nome do western protagonizado por Clint Eastwood), que tocou na sexta-feira, 8 de Julho. A formação é composta pelo polaco Bond, no baixo de duas cordas, o suíço Lucien Dubuis no saxofone tenor, clarinete baixo e contrabaixo e o (este sim) austríaco Alfred Vogel, na bateria e percussões.

Esta formação devia ter sido dica suficiente para perceber o que aí vinha (pista: não adicionei o pormenor das duas cordas do baixo por acaso). Bastaram as primeiras notas, os primeiros acordes e riffs saídos daquele baixo, para de imediato ter recuado no tempo e ser levado até 1999, ano em que, enquanto esperava por um concerto de Paradise Lost, assisti, por acaso, a um support act de uma banda que se chamava Morphine. Não conhecia rigorosamente nada deles; aliás, nem sequer sabia que existiam. É certo que o set longo que tocaram – que se prolongou ainda mais pelos discursos em português quebrado do vocalista e baixista (de duas cordas!) Mark Sandman – fez com que, a certa altura, desejasse que terminassem e deixassem os cabeça-de-cartaz subir ao palco. Até porque a noite já ia longa, antes deles, já tinham tocado os Blasted Mechanism e os Wonderland.

Mas gravei na minha memória o nome daqueles três tipos, com uma formação e um som totalmente diferente do que até então tinha ouvido (e depois de então). Devo confessar que para isso também contribuiu, como costuma ser nestas coisas, o facto de, poucos dias depois, ter recebido uma chamada de um dos amigos que viu comigo esse concerto, para dizer que tinha acabado de saber que Sandman tinha morrido em palco, perto de Roma, vítima de um ataque cardíaco.

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Os Hang ‘em high são uma banda instrumental, não têm um vocalista como os Morphine tinham. Nas suas composições, este papel acaba por ser ocupado pelo espaço adicional para o saxofonista e pela improvisação. Mas o som é bastante similar: arrastado, algo sombrio, fruto dos riffs saturados e impregnados que saem do baixo, e do qual o tema “Edges”, disponível no site oficial da banda, é um excelente exemplo.

É o “low rock”, o termo que Sandman usava para descrever a música da sua banda, aludindo a um estilo de rock que, de forma quase herética à altura, põe (orgulhosamente?) as duas cordas do baixo no pedestal outrora ocupado pela guitarra. O resultado é um trio ancorado no som bastante particular daquele baixo, com afinações alternativas, tocado com slide, donde saem as tónicas, que às vezes se juntam a quintas de power chords pujantes e carregados de intenção e intensidade.

É certo que o saxofone não é barítono como o de Dana Colley, mas o clarinete baixo e contrabaixo contribuem igualmente para essa ambiência algo soturna, como se introduzissem uma voz de registo grave a um total de outras vozes já de si particularmente graves. O termo “low” tem essa ambivalência: tanto pode ser alusivo ao registo musical como, no limite, a um determinado estado de espírito.

Na terça-feira 12 de julho foi a vez dos franceses Journal Intime, o segundo projecto que aqui destaco. Trata-se de um trio de sopros com Sylvain Bardiau no trompete, Frédéric Gastard no saxofone baixo e Matthias Mahler no trombone. Recorrendo tanto à língua materna como a um inglês cravejado do sotaque da língua materna, Gastard faz o aviso à navegação de que o concerto será uma “viagem ao coração da música de Jimi Hendrix.”.

Ao contrário dos Hang ‘em high, os Journal Intime fazem versões das músicas do guitarrista legendário. O primeiro tema põe de imediato as cartas em cima da mesa. Após uma introdução dissonante ao estio “free jazz”, rebentam as primeiras notas do “Foxy Lady” e, pouco depois, dou por mim a cantar entredentes, baixinho “You know you’re a cute little heartbreaker”. O trompetista fica em evidência no tema seguinte, “Hey baby”, tocando a solo de uma forma que parece que fala e faz um discurso, com inflexões de voz. Seguem-se outros temas marcantes do guitarrista americano, como “Come on let the good times roll”, “Angel” e o original de Bob Dylan “All along the watchtower”.

Os dois momentos mais altos do final de tarde vieram na última parte do espectáculo. Um deles foi numa excelente versão que desconstrói o “If 6 was 9”, iniciando-se com o trompetista e o saxofonista a produzirem sons apenas com os bocais dos respectivos instrumentos, e só a meio da música os voltam a encaixar novamente e a tocar de forma regular. Para último tema do set, os músicos reservaram o tema “Lover man”, uma versão de Hendrix do original de Muddy Waters com o título de “Rock me baby”. A introdução é tocada a solo pelo saxofonista que produz duas linhas melódicas em simultâneo, uma espécie de arpejo na linha de baixo, enquanto os harmónicos de três notas fugidias se ouvem na linha do topo.

O saldo final é bastante positivo. O JiGG é um evento recheado de projectos interessantes e, tendo em conta os preços dos bilhetes, apresenta uma relação qualidade-preço invulgarmente boa, quando comparada com outras alternativas para ver e ouvir música do mesmo género.

 

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