God – A Comédia Que Explica os Novos 10 Mandamentos

Reportagem de Tânia Fernandes e António Silva

GodReportagem de Tânia Fernandes e António Silva

O Todo Poderoso desceu à Terra, para deixar alguns recados à humanidade, mais concretamente, aos Portugueses. Mas desta vez dispensou intermediários e escolheu Joaquim Monchique para fazer dele próprio. God é a peça que estreia hoje, no Auditório do Casino de Lisboa. Uma comédia infernal!

Uma adaptação do texto original de Javerbaum feita por João Quadros, António Pires (que é também encenador), Joaquim Monchique e Rui Filipe Lopes resulta numa paródia aos costumes dos portugueses, reduzindo a moral ao bom senso. Um texto provocador, que até pela própria temática se  pode tornar sensível, mas sem ser ofensivo e a resultar em sequencias hilariantes de piadas.

Depois de ter entregue a Palavra a Moisés, o Senhor está desiludido com a má interpretação que a humanidade tem feito dela, ao longo dos anos. É por essa razão que decide descer à Terra e ter uma espécie de conversa informal como todos nós. Aquele puxão de orelhas paternalista que se destina a repor a ordem.

Aproveita também para revelar os Novos Dez Mandamentos e esclarecer alguns mal entendidos. Nesta missão, é ajudado pelos arcanjos Miguel e Gabriel. Miguel (Rui Andrade) é uma espécie de moço de recados com poderes de clarividência que consegue ler a mente das pessoas que estão na plateia e dá voz às suas inquietações e dúvidas. Gabriel (Diogo Mesquita) permanece no palco durante toda a peça e confronta Deus com algumas das suas próprias reflexões retiradas de textos sagrados. E Joaquim Monchique é claro quando diz que “A Bíblia acerta sempre, sobretudo quando a atiramos com força e de muito perto”. A expressão corporal do ator, os momentos de pausa, as inflexões na voz são a complementaridade deste texto rico e bastante acutilante.

O ambiente é de reallity show, a começar pelo próprio cenário, com uma escadaria iluminada a desembocar num sofá, os sons e toque televisivos onde não falta a famosa “Voz” do Big Brother. São inúmeras as alusões a programas e figuras nacionais. O discurso segue uma linha perfeitamente alucinatória com uma interpretação bastante marginal dos escritos sagrados e temos acesso a uma versão do Genesis nunca antes ouvida.

Sabia que o Jardim do Paraíso foi inicialmente habitado por dois homens : Antunes e Adão? Que foram criados na mesma condição e só tinham de cuidar do jardim? E que o problema foi a serpente, algarvia de gema que saía para a bica com a carteira debaixo do braço, e que lhes deu a provar o fruto da árvore do conhecimento? Que as pessoas não devem acreditar em tudo o que lhes dizem e o recado dado a Noé foi no sentido de levar para a Arca 2 tupperwares, um com frango assado, outro com batatas fritas, que é o que se leva para piqueniques?

Tantas dúvidas desfeitas ao longo deste discurso de cerca de hora e quarenta minutos, onde não faltam as criticas àqueles que invocam o nome do Senhor em vão. “Gritam Ai Valha-me Deus e eu saio disparado”. É preciso ter em conta que “Eu estou sozinho num call center a atender milhões de chamadas”. Momento de reflexão também para o uso abusivo do nome, nomeadamente na música pimba…

A “comadre” Fátima e os 3 pastorinhos não podiam faltar neste cenário muito mais humano e mundano do que celestial. “Sou um egocêntrico, sexista, racista (…) sou como vocês” admite no final. Nesta reprimenda geral, em que tudo está avariado e o mundo, afinal, não é o resultado do que criou, há lugar para um sentimento de esperança, numa linha muito new age: acreditem em vocês próprios!

God está em cena no Auditório dos Oceanos até ao dia 17 de abril, de quinta-feira a sábado às 21h30 e aos domingos às 17h00. Os bilhetes custam entre 12 e 16 euros.

 

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