Gisela 2.0 no Teatro São Luiz

Gisela João
Gisela João

Reportagem de José Magalhães (texto) e Joice Fernandes (fotografias)

A cortina vermelha abre lentamente. Gisela desce do alto num trapézio e aterra a salvo no palco. Não vem descalça e sorri como quem está a pregar uma partida. Exibe um vestido curto, azul elétrico e traz sapatos altos, entre o vermelho e o cor de laranja, “o novo preto”. Tem um ar de Alice no País das Maravilhas, sem coelhinho.
É esperada por uma plateia cheia. Há fumos de concerto rock, uma banda de nove muchachos (como ela mais tarde dirá), um dos quais muchacha. Olha-se para a moça em palco e salta à vista que fez uma longa viagem desde os tempos em que surgia em Lisboa como “a rapariga de Barcelos”. Era um jovem bicho minhoto com garganta dourada, virada para um fado sem sotaque do norte. Logo aí se topou que tinha bom ouvido, porque o tal sotaque impregna-se na pele e é muito difícil de erradicar com a limpeza que ela exibe (sei do que falo).

Entrar a matar

Gisela João entra a matar. Três canções seguidas, sem nada dizer sobre a playlist (ela prefere dizer Caixa de Música) de que andou sabiamente a falar durante semanas (googlem e verão como foi meticulosa e eficiente!).

A minha primeira curiosidade era básica: será que a fadista portuguesa atina com o inglês ou vai estropiar as letras como fazia a grande Amália e a gente desculpava por causa da linda voz? Resposta: esta Gisela 2015 não estropia nada.

Fez uma coisa sensata: obteve tradução e por isso quando canta sabe o que está a debitar e consegue interpretar estados de alma; o resto foi pôr em ação o tal bom ouvido, repetir uma e outra vez, copiar a pronúncia certa, coisa que fez a preceito.

A ordem das canções, diga-se, é perfeitamente arbitrária. A Gisela 2015 andou pela estrada, cantou com naipes de 2,3,30 acompanhantes, em praças, Coliseus, espaços fechados e abertos. Não aguenta os sapatos de salto alto mais de dez minutos e quinze segundos, mas a verdade é que fica muito melhor descalça, perna ao léu. Penso melancólico que ainda não se lhe atravessou no caminho uma Chanel que lhe perceba o corpo vigoroso, na verdade muito curto. O bibe azul elétrico (que dançaria bem no corpo de fausse maigre da Joana de Verona,por exemplo) fica-lhe demasiado justo. Deixa ver uma roupa íntima do tempo da II Guerra Mundial, que não lhe assenta bem. Um corpete preto como os da Dita von Teese seria mais apropriado. Felizmente, para ela e para nós, quando saltita pelo palco, a dança dos pés e da voz fazem esquecer assimetrias mal resolvidas.

Gisela João
Gisela João

Um Programa Inovador

O programa muito anunciado avisou toda a gente, pelo que fui um dos que não foram ao engano (“Este evento parte de um convite São Luiz Teatro Municipal para Gisela João conceber um ciclo especial de 3 dias, com atividades a decorrer em todo o espaço do Teatro, desde a Sala Principal onde apresenta este espetáculo, ao Jardim de Inverno que terá dois concertos de Guitarra Portuguesa e uma noite de Danceteria com “Gisela João, Sheila & Tomás”. Ainda em paralelo decorrem um workshop sobre bordados tradicionais portugueses e sessões fotográficas”. Espero que a danceteria seja um êxito, mas só me pronuncio sobre o que vi e ouvi).

Ora o que se pôde ver no palco cheio de instrumentos e com um cenário que começou por refletir a imagem do dourado interior do São Luiz foi também uma espécie de Bolero cantado em …italiano, importado dos hits meli-melo do falecido Nicola Arigliano. Curiosamente, foi no mesmo palco que, em 20 de julho de 2012, teve lugar um concerto que, pela primeira vez em Portugal ,juntou o bolero da Colômbia e o Fado, com a nossa  Raquel Tavares e a bolerista colombiana Lucía Pulido. Não sei se a Gisela sabe que o bolero que cantou está para o legítimo e da Bayer como o western spaghetti está para o das fitas do Peckinpah. É um bolero- gozação de cabo a rabo, apelando melodramaticamente aos sentimentos excessivos e paixões malucas. Saiu-lhe bem, mas com uma ou outra pisadela nos calos da língua italiana, que é razoavelmente diferente do castelhano.

A playlist foi sendo cantada com sotaque brasileiro impecável (Nelson Cavaquinho parabeniza) e inglês de swing, com a cantora a revelar quem sugeriu cada escolha. Gisela confessou ao Expresso que “gosta “tanto, mas tanto, mas tanto” de cantar que o rótulo de fadista nem sempre lhe parece exato. “Eu gosto de cantar muita coisa e, como digo muitas vezes, há muitas músicas que, para mim, também são fados”. Por essa via ficámos a saber que Camané, foi um dos ‘conselheiros’  a par do cineasta João Botelho, André Carrilho, o ilustrador emérito, e mesmo Luís Montez. Notei que a escolha foi pretexto para algum networking: a Anabela Mota Ribeiro, que Gisela temia que fosse ciente das tamancas e esfíngica veio às boas, ficaram amigas, e sugeriu-lhe um tema, o “Volver A Los 17”, da Violeta Parra. A defunta reviveu ali à nossa frente, gloriosamente, durante três minutos:

“Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber/ Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamento /Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente / Nos aleja dulcemente de rencores y violências / Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes”.

Gisela João
Gisela João

Afinal Houve Fadista Também

Será que a ânsia de mostrar cosmopolitismo iria levar a expurgar a raiz fadista? Não houve expurgo. Para nos trocar as voltas, não cantou Amália, mas sim Marceneiro (o dificílimo “Da Traição”). Ah, Fadista!!!

O mix melódico e de estilo tem um efeito positivo que excede largamente algum inconveniente: a experiência de vestir fato estrangeiro permitiu explorar facetas desconhecidas da tal áurea garganta. Descobre-se que pode ser rouca como a Scarlett Johansson e cantar minutos a fio dois tons abaixo do que tem sido seu costume, com um resultado sensual, a condizer com o ar de cabaret que os encenadores quiseram recriar. Sai-lhe perfeitamente natural o “Every Time We Say Goodbye”, do Cole Porter, um clássico que faz divas.

Mas há mérito da intérprete: conseguiu fazer-me ouvir com algum deleite uma canção contra a qual criei um fundo preconceito. Ouvi-la cantar “Às vezes é no meio de silêncio que eu descubro afinal quem sou”, da Maria Guinot, lembra-me quando foi eleita pelos júris misteriosos do Festival da Canção para nos representar na Eurovisão e trazer para casa uma monumental derrota. Ela, fadista/cantora cools jazz, tinha um aninho de idade quando tudo isso aconteceu. Decénios depois, reorquestrada, a letra e a música brilham como as conversas da Adriana Calcanhoto consigo mesma (ou afinal os pensamentos da Gisela, que se revê naquilo de que gosta). Confessou publicamente esse mecanismo:

“É engraçado porque todas as músicas têm algo da Gisela. Não gosto muito de falar de mim mas há uma coisa que eu reconheço em mim e que pelos vistos os outros também veem: é que sou muito queixinhas mas ao mesmo tempo que me estou a queixar estou sempre a pôr o pé para andar para a frente. Não há resignação. E é tudo de amor, muito romântico. Comigo é tudo cor-de-rosa, com um sorriso na cara, porque é assim que gosto de levar a vida, acho que é muito mais fácil.”

A cenografia de dois artistas plásticos (João Pedro Vale e Nuno Alexandre Ferreira) ajudou a criar um palco quente, fumegante como o Vesúvio, com nuvens de balões prateados subindo e baixando como a vida, a condizer com o segundo vestido envergado pela diva, de lantejoulas e muito mais certeiro que o azul.

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Profissional em Tudo

Calculo que difícil foi empinar as letras, em línguas várias, com a pronúncia certinha ou quase (o malfadado italiano do Sinatra de Nápoles). Como gosta de desafios e de confessar que gosta (“ Só sinto que cresço no experimenta-falha, experimenta-corre bem, experimenta-falha. É assim”) tenho a certeza de que a experiência só a fará  crescer em qualidade e beleza.

No dia 10 de dezembro pudemos confirmar que são raras as experiências perfeitas. A Grande Final sonhada era uma versão nunca ouvida do histórico “Acordai”. Lopes Graça, bem arrancado ao passado da luta contra o Dinossauro Excelentíssimo.

Acontece que Gisela arrancou fora de tom. Não conseguiu atingir o escolhido pelo Coro dos Amadores da Música, poderoso e bem afinado. Por segundos temi que a magia cessasse de súbito e o show acabasse logo ali, em choro, baba e ranho. Gisela (tiro-te o chapéu miúda de Barcelos!) fez a coisa mais sensata do mundo: pousou o microfone e deixou que o coro entoasse os versos em falta. Se chorou foi por dentro, porque por fora sorriu. Palmas, palmas. Toda a gente fingiu que sim e pediu mais.

Veio “Every Time We Say Goodbye”, em repetição, para dizer à malta que fosse para casa. Treze canções, com esta em dose dupla, deram-nos uma noite azarada, mas suficientemente memorável. Esta Gisela 2.0 é uma cool singer, que podemos ouvir infindavelmente. O mundo não está a seus pés, porque é cedo, mas espera-a.

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