Galerias Romanas da Rua da Prata voltaram a atrair multidões

galerias_romanas_6Se há iniciativa das Jornadas Europeias do Património com sucesso, essa é sem dúvida a abertura ao público das galerias romanas da Rua da Prata. E a edição deste ano não foi exceção.

Ao longo dos três dias anuais da praxe, as imensas filas de espera para a visita repetiram-se e muitos foram aqueles que tiveram de adiar para 2014 a descida ao criptopórtico. Logo na sexta-feira, o número de visitantes esteve parte dos dois mil, tendo a fila no sábado encerrado por volta das 11h00 (as visitas acontecem entre as 10h00 e as 17h00), uma vez que já chegava ao Rossio.

Mas afinal que reservam estas galerias que tanto público atraem? Na verdade, quem espera encontrar vestígios arqueológicos de monta poderá sofrer uma desilusão.

De acordo com o guia do Museu da Cidade responsável pela visita, tempos houve em que se julgou ser este o espaço de umas termas, sobretudo devido à descoberta de uma inscrição dedicada a Esculápio, deus da Medicina. Estávamos então no final do séc. XVIII, passados poucos anos sobre o terramoto que assolou a capital. Mas hoje é praticamente unânime que estamos sim perante um criptopórtico, ou seja, uma construção abobada que permitia aos romanos lidarem com terrenos irregulares ou instáveis e sobre esta suportarem outras edificações, na sua maioria públicas. Estas galerias, pensa-se, seriam a base de um edifício ligado ao comércio, atividade muito importante da Olissipo – nome romano de Lisboa – que era à época o porto mais ocidental do império. A atestar esta teoria encontramos ainda algumas pequenas celas, que funcionariam como armazéns onde seriam guardadas amostras dos produtos a negociar com os compradores.

Segundo os arqueólogos do Museu da Cidade, as galerias terão sofrido alterações ainda durante o tempo dos seus construtores. Desconhece-se, porém, se estas foram consequência de exigências económicas ou da atividade sísmica que carateriza Lisboa. Certo é que, passados mil anos, a estrutura se conserva, mesmo que com algumas fendas, e o prognóstico é que se assim se mantenha. A grande diferença é que quem hoje visita as galerias terá de ir preparado para molhar os pés ou levar com algumas gotas de água que caem do teto. É que se no tempo dos romanos estas eram uma zona seca, hoje a situação é bem distinta graças à infiltração das águas freáticas. No séc. XIX, a população lisboeta chegou mesmo a usar as galerias como cisterna, mas o hábito foi abandonado ao apurar-se que a água era imprópria para consumo.

Uma vez que se encontram submersas, as galerias só podem ser visitadas graças ao trabalho dos bombeiros, que uma semana antes procedem à extração da água, processo esse que se mantém ao longo dos três dias anuais através de uma bomba.

Para além da questão logística, existe ainda o risco da estrutura sofrer sérios danos ou mesmo ruir na ausência da água, o que poderia levar à derrocada dos edifícios construídos sobre estacaria nela assentes.

Assim, quem perdeu a oportunidade de descer este ano, só lhe resta mesmo aguardar pela próxima edição das Jornadas Europeias do Património, durante as quais está prevista a nova leva de visitas e, a manter-se a tradição dos últimos anos, uma espera que pode chegar a seis horas.

Reportagem de Alexandra Gil

 

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