Festival Terras Sem Sombra Já Está De Regresso Ao Alentejo E Chega A Serpa Este Fim De Semana

Quase 50 atividades vão preencher a 15ª edição do festival de música Terras Sem Sombra, no Alentejo, que arrancou no passado dia 26 de janeiro.

Além de concertos, a edição deste ano, que se prolonga até julho, inclui conferências, visitas guiadas ao património e acções de salvaguarda da biodiversidade em 13 cidades: Vidigueira, Serpa, Monsaraz, Valência de Alcântara, Olivença, Beja, Elvas, Cuba, Ferreira do Alentejo, Odemira, Barrancos, Santiago do Cacém e Sines, chegando a passar a fronteira para levar, pela primeira vez, a sua programação a duas localidades com fortes ligações a Portugal, na Extremadura espanhola: Valência de Alcântara e Olivença.

“Sobre a Terra, sobre o Mar: Viagem e Viagens na Música (Séculos XV-XXI)” é o tema do festival em 2019, o que, segundo a organização, tem como fio-condutor duas efemérides: os 550 anos do nascimento de Vasco da Gama, em Sines, e as comemorações do 5º Centenário da viagem de circum-navegação de Fernão de Magalhães

O Terras sem Sombra une, de forma inédita, a música ao património e à biodiversidade, e caracteriza-se por associar, à exigência da qualidade, uma programação de cariz internacional.

A edição de 2019 tem, como país convidado, os Estados Unidos, e traz a Portugal destacados intérpretes do outro lado do Atlântico, assim como uma programação, que faz uma radiografia da música norte-americana, do século XIX à criação mais recente. Estão previstas estreias, integrais ou europeias, de alguns dos mais importantes compositores americanos da atualidade.

“Praticamente desde a independência americana existiriam consulares de Washington, em Odemira e Sines, sinal da vitalidade dos intercâmbios então estabelecidos e que se mantêm até hoje”. Por outro lado, o festival lembra a figura do abade José Correia da Serra (1750-1823), natural de Serpa, um dos cenários do festival este ano. Botânico e diplomata, Correia da Serra “foi grande amigo de Thomas Jefferson” (1743-1826), o terceiro presidente dos Estados Unidos. Fez parte do núcleo fundador da Academia das Ciências de Lisboa e “exerceu importante influência política nos Estados Unidos, ao longo de vários anos, e foi aí embaixador de Portugal em 1816”.

A abertura do festival ocorreu nos Estados Unidos, em Washington, no Kennedy Center, no dia 14 de janeiro, onde se ouviu o Cante Alentejano, através das vozes do Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de S. Bento, um agrupamento “clássico” da música tradicional alentejana.

Um Festival, Seis Países, Uma Região

Espanha está bem presente, nesta edição do festival, que inaugura em Portugal o ciclo de eventos de Mostra Espanha 2019, a convite do Governo espanhol. De Madrid virá o Trío Arbós, com um programa de música hispano-portuguesa dos séculos XIX-XX. Juan de la Rubia, organista titular da Basílica da Sagrada Família, de Barcelona, apresentará, na Sé de Elvas, a obra de Antonio de Cabezón. “Fora da caixa” será o concerto, em Odemira, com Quartetazzo, formado por quatro mulheres flautistas da Argentina, do Brasil e de Espanha, que recriou melodias tradicionais da América do Sul.

Sendo uma prioridade neste festival, os autores e intérpretes portugueses assumem decidido protagonismo, com nomes como Ana Telles, a Orquestra Clássica do Sul e o maestro Rui Pinheiro, Sofia Diniz, Fernando Miguel Jalôto ou Nuno Lopes. Há também espaço para uma aproximação a outras pátrias musicais, abarcando intérpretes da Hungria, da República Checa e das Filipinas, algo a ter em conta numa edição dedicada ao périplo de Fernão de Magalhães, mas que não esquece os 550 anos do nascimento de Vasco da Gama (1569-2019).

Neste ano, a panóplia patrimonial abre-se decisivamente a novos âmbitos, entre eles o património imaterial, dando grande atenção a aspetos tão diversificados como o fabrico artesanal do pão, a aprendizagem do Cante ou as tradições relacionadas com os astros, com a sua observação noturna como pano de fundo.

Quanto à biodiversidade, 2019 vai ser um ano cheio de aventuras. Por exemplo, acompanhar o elevador de peixes da barragem de Pedrógão, participar na festa do mundo rural – seguindo um rebanho de ovelhas de raças autóctones ao longo das canadas reais, com os pastores de Beja e do Fundão – ou entrar nas águas portuárias de Sines para conhecer a vanguarda da aquacultura. Ou ainda, na Extremadura, percorrer a maior mancha de monumentos megalíticos da Europa, em Valência de Alcântara, conhecer os segredos do Tejo internacional ou aprofundar a personalidade única de Olivença.

QUANDO VAI ACONTECER?

O Terras Sem Sombra decorre ao longo de 13 fins-de-semana distintos, cada um numa cidade. O festival arrancou dia 26 de Janeiro na Vidigueira e termina dia 7 de Julho em Sines.

  • 26 e 27 de Janeiro – Vidigueira
  • 9 e 10 de Fevereiro – Serpa
  • 23 e 24 de Fevereiro – Reguengos de Monsaraz
  • 9 e 10 de Março – Valência de Alcântara (ES)
  • 23 e 24 de Março – Olivença (ES)
  • 6 e 7 de Abril – Beja
  • 27 e 28 de Abril – Elvas
  • 4 e 5 de Maio – Cuba
  • 11 e 12 de Maio – Ferreira do Alentejo
  • 25 e 26 de Maio – Odemira
  • 8 e 9 de Junho – Barrancos
  • 22 e 23 de Junho – Santiago do Cacém
  • 6 e 7 de Julho – Sine

PROGRAMAÇÃO

A programação do festival conta, no cartaz, com o coro feminino do Spelman College Glee Club, o Trio Arbós, a Orquestra Clássica do Sul, o organista Juan de la Rubia, o Kronos Quartet, entre outros, e distribui-se em três vertentes, música, biodiversidade e património edificado.

O Terras Sem Sombra abriu no dia 26 de janeiro, em Vila de Frades, no concelho da Vidigueira, com a atuação do coro norte-americano Spelman College Glee Club, sob a direção musical de Kevin Johnson, e acompanhado ao piano por Brittney E. Boykin, na igreja de S. Cucufate.

A segunda etapa do festival é cumprida em Serpa, no dia 9 de fevereiro, sob o título “À Vol d’Oiseau: Aves e Biodiversidade no Repertório Pianístico – do Barroco ao Presente”, com a pianista Ana Telles e comentário de João Eduardo Rabaça.

Segue-se Monsaraz, no dia 23 de fevereiro, com “A Ordem Natural das Coisas: Música Espanhola e Portuguesa dos Finais do Século XIX”, pelo Trio Arbós, na igreja de N. S. da Lagoa.

Março é o “mês espanhol” do festival: no dia 9 a Orquestra Clássica do Sul, sob a direção de Rui Pinheiro, toca na igreja de N. S. de Rocamadour, em Valência de Alcântara, e no dia 23, na igreja de S. Maria Madalena, em Olivença, é feita a apresentação de “La Lyre d’Apollon”, de Jacques Morel, por um ensemble constituído Sofia Diniz e Holger Faust-Peters (viola da gamba), Josep Maria Martí Duran (tiorba) e Fernando Miguel Jalôto (cravo).

Em abril, no dia 6, o Delphi Trio apresenta, na igreja do convento de S. Francisco, em Beja, “Percursos Vitais: Trios de Pierre Jalbert e Franz Schubert”, e no dia 27, na igreja de N. S. da Assunção, Juan de la Rubia aborda a obra de Antonio de Cabezón (1510-1566) com o recital “Itinerários pela Europa ao Serviço do Rei”.

Em maio realizam-se três concertos: no dia 4 em Cuba, com a soprano Manila Adap acompanhada ao piano por Alberto Urroz, no dia 11, na ‘villa’ romana do Monte da Chaminé, em Ferreira do Alentejo, os músicos Ferenc Snétberger (guitarra), László Horvath (violino), Elemér Fehér e Béla Lakatos (clarinete), Norbert Sandor (clarinete baixo e tárogató) e Benjamin Urban (piano) acompanham a soprano Orsoly Janszo, enquanto, no dia 25, em S. Martinho das Amoreiras, em Odemira, atua o Quartetazzo com Epi Pacheco, na percussão.

O Ceskoslovenské Komorní Duo toca no dia 22 de junho em Santiago do Cacém.

O festival encerra em Julho com um concerto do Kronos Quartet, no dia 6 de julho no Castelo de Sines.

De janeiro a julho, ouvir-se-á todo um mundo de sons, do século XV ao século XXI. Descobrir-se-ão o património material (a villa romana do Monte da Chaminé; a Arte Popular e a Arte Contemporânea que convivem em Elvas) e o património imaterial (uma oficina de cante em Serpa, os segredos do pão tradicional da Vidigueira). Mergulhar-se-á na paisagem, seguindo a rota dos pastores em Beja, e observar-se-ão as constelações no cristalino céu noturno de Barrancos, enquanto se revelam as lendas locais a elas associadas.

O festival é organizado pela Associação Pedra Angular em parceria com alguns municípios do Alentejo, tendo a colaboração da embaixada portuguesa em Washington, da sua homóloga em Lisboa e da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento.

As entradas são gratuitas.

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