Fado Alfama – Mais Uma Grande Edição De Homenagem À Canção Património Imaterial Da Humanidade

Reportagem de Madalena Travisco (Texto) e Joice Fernandes (Fotos)

Raquel Tavares
Raquel Tavares

Na sexta edição do Festival do Fado, o rooftop do novo Terminal de Cruzeiros foi um novo palco, o festival até mudou de nome mas o essencial manteve-se. Desde o pôr do sol até de madrugada, a 28 e 29 de setembro, Alfama recebeu em mais de 12 palcos, tantos e diversos concertos que revelam que “O melhor do Fado toca a todos”.

José Gonzalez dá o mote: “Aqui começa esta edição do Santa Casa Alfama (…) Só com guitarra e viola, que é como Fado começou”. Guilherme Pança na guitarra portuguesa e Rogério Ferreira acompanham o Fadista – também mentor do cartaz desta edição:

Sempre que Lisboa canta/Não sei se canta/Não sei se reza
A sua voz com carinho/Canta baixinho/Sua tristeza
Sempre que Lisboa canta/à gente encanta/Sua beleza
Pois quando Lisboa canta/Canta o fado com certeza

Como convidados, José Gonzalez trouxe novamente os Sangre Ibérico no cruzamento do fado tradicional com o Flamenco com o sucesso da “cavalgada” pelo meio. Marco Rodrigues foi o Senhor que se seguiu no mesmo palco: “Sejam bem vindos a este meu, nosso – e agora vosso – copo meio cheio”- na referência ao último álbum de canções. Podendo começar de várias maneiras, pareceu-lhe fazer todo o sentido começar com o “Lisboa menina e moça”. Assíduo neste festival, mas pela primeira vez no rooftop – não fosse o palco novidade, teve Diogo Piçarra como convidado.

No palco do restaurante Museu do Fado esteve João Chora com os aromas ao Fado e ao Ribatejo. Maria da Nazaré estreou o palco Ermelinda de Freitas, este ano instalado nas escadinhas de São Miguel, a que se seguiu o clássico Artur Batalha.

A distribuição dos concertos pelos 12 palcos não permite assistir a todos. Seria preciso ter o dom da ubiquidade…

 

A lista dos fadistas, guitarristas e instrumentistas também não se esgota nos nomes referidos. Na igreja de S. Miguel, Peu Madureira sentiu-se em casa neste concerto em nome próprio [na casa do Senhor]. No palco principal – palco Santa Casa, “Fados meus” de Paulo de Carvalho. Lá em cima, no Centro Cultural Magalhães Lima, o palco EDP teve uma fusão: O projeto “+351 FADO de João Monge e João Gil” apresentado como uma síntese do repertório com raízes mais fadistas, com as vozes de Ana Margarida e Duarte, acompanhados por João Gil na guitarra acústica, Pedro Amendoeira na guitarra portuguesa, José Conde no clarinete e Ivo na percussão. Duarte voltou no segundo dia, como parte do elenco do Sr. Vinho e com todo o espaço para singrar per si.

Entre fados tradicionais e as marchas, Filipa Cardoso – fadista de raça, com o coração e a alma de Alfama – fez as escadinhas de São Miguel parecerem pequenas tal foi a afluência. Filipa apresentou-se também no dia seguinte, num dueto com João Pedro Pais que vai ser tema a editar muito brevemente. Dulce Pontes encerrou o primeiro dia do festival no palco principal Santa Casa.

O segundo dia do festival começou no rooftop com os brilhos do por do sol ao entardecer e de parte do elenco do Sr. Vinho – emblemática casa de fados e incubadora de talentos da Senhora Dona Maria da Fé. Mel, Sara Paixão e Duarte demonstraram o perfecionismo, a exigência e o carinho que Maria da Fé coloca no desenvolvimento das novas gerações de bons fadistas. Destaque para o alentejano Duarte – há 14 anos na casa – ultra seguro e com presença muito própria no palco, à guitarra e no cante. Uau! A justa homenagem a Maria da Fé ficou completa pela própria: “ São 60 anos a cantar. Tenho 76 (…) [aplausos]. Tenho o Sr. Vinho há 42 anos. É como um filho para mim, além das minhas duas filhas”. Cantará até que a voz lhe doa. Com toda a classe, merece todo o respeito dos aplausos de pé.

As escadinhas de São Miguel foram palco para Ana Marta seguida de Jorge Roque. Carlos Leitão, no palco Museu do Fado, celebrou o Fado. Maura e António Pinto Basto dividiram o Palco Santa Casa antes da enorme Alexandra e de Raquel Tavares que fez o encerramento.

No Centro Cultural Magalhães de Lima, Sandra Correia antecedeu a participação de João Pedro Pais. Fiel a si próprio, João Pedro Pais até cantou “Os Putos” e “Lisboa Menina e Moça” com arranjos à sua maneira. Pediu desculpa por não ter trejeitos fadistas… O concerto foi uma variante ao fado mas uma celebração da música portuguesa veemente aplaudida e com pedidos de bis.

Na hora de descer ao palco principal, o festival aproximou-se do fim, com maior concentração dirigida à zona ribeirinha. Lá esteve Raquel Tavares com o alinhamento dos “discos pedidos” que preparou com a Rádio Amália. Em off os registos dos “fados pedidos”; em on a Raquel que atendeu, com a garra de sempre, aos pedidos da rádio, da tia, da madrinha e até da senhora da mercearia abastecedora de Alfama. E confessou. “Há 27 anos que a minha identidade é o Fado (…) Hoje, enquanto me arranjava em casa, trajei-me de fadista, olhei-me ao espelho e pensei assim: Eu quero ser isto para o resto da minha vida”.

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