O Espírito E A Alma Alentejana Na Festa De 40 Anos De Canções De Vitorino

Reportagem de Elsa Furtado (Texto e Fotos)

Ainda não eram 21h00, na sexta feira passada, e na Rua António Maria Cardoso, ali ao Chiado, já ecoavam os sons do Alentejo, pelas vozes do Grupo Coral Cantares de Pias, que fazia assim o aquecimento para o concerto em que íam participar…e que concerto foi … animado, íntimo, com amigos e memórias … afinal, não é todos os dias que se celebram 40 anos de cantigas.

E foi no velhinho teatro Municipal São Luiz, inaugurado no final do século XIX, que Vitorino Salomé resolveu fazer a festa, ali bem próximo do Largo da Academia Nacional de Belas Artes e da desaparecida Leitaria Garrett, onde passou vários bons momentos quando jovem estudante.

Para celebrar com ele escolheu alguns amigos e companheiros de estrada, talvez não os mais esperados, mas mesmo assim amigos … A abrir a noite, esteve o Grupo Coral Cantares de Pias, cujo som foi subindo à medida que emergiram do fosso da orquestra para o palco, e que cantou duas modas alentejanas à capela, relembrando assim as origens do artista e também trazendo para esta grande festa a alma do Alentejo, cujo cante é agora Património Imaterial da Humanidade classificado pela UNESCO.

Depois, abriram-se as cortinas e os músicos apareceram, aos microfones, nas vozes de apoio as melódicas Filipa Pais – companheira de outras lides e Ana Vieira, depois surge o anfitrião – Vitorino Salomé, e com ele traz “Fado Alexandrino”, composto pelo amigo António Lobo Antunes.

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“Amanhã chegaste à minha vida
e disseste bom dia e era noite lá fora
puseste-me na mesa o prato da comida
acenaste-me adeus e não te fostes embora
…………………………………………………….”

 

E entre salvas de palmas, golinhos de vinho e de água, e piadas e histórias, a noite desenrolou-se, fio a fio, memória a memória, momento a momento, quase sem darmos conta do tempo a passar.

Primeiro amigo e convidado da noite foi Manuel João Vieira, que interpretou dois temas, um deles “Ursinho de Peluche”, em estilo “Rock Sinfónico”. Seguiu-se Samuel Úria, que Vitorino disse ter conhecido recentemente, enquanto preparavam o projecto infantil para o Festival Sol da Caparica. A valsa do “Afonso”, trouxe um ritmo diferente ao palco, enquanto Vitorino se manteve na retaguarda e Manuel João Vieira foi para o bandolim.

vitorino-009Vitorino foi brincando, dizendo “Hoje não Canto…”, e não cantou mesmo, pelo menos por enquanto… seguiu-se Filipa Pais, acompanhada ao piano, com o tema “Cavalo de Todas as Cores”.

Nova convidada, a bonita e bem disposta Ana Bacalhau, vocalista dos Deolinda, com “Um Contra o Outro”, acompanhada por Vitorino e Samuel Úria.

E eis que finalmente chega a vez de Vitorino tomar conta do microfone. Escolhe “Poema”, de António José Forte, tema oferecido a ele e ao seu irmão Janita, que não subiu a palco, mas estava na plateia, tal como muitos outros amigos e restante família a dar apoio.

“Uma Pontinha por Ti” e “Ana II” foram dois dos temas que se seguiram, até Vitorino chamar Ana Vieira, para interpretar o emblemático e tocante “Chama-se Catarina”, de homenagem a Catarina Eufémia, e foi em homenagem que se seguiu, a Zeca Afonso, com quem Vitorino disse ter aprendido tanto, inclusive “a partilhar o palco”, e que o outro tema poderia ser mais apropriado senão “Trás Outro Amigo Também”, na companhia de Filipa Pais e Ana Vieira.

Para quebrar a melancolia, seguiu-se uma “Saia”, alegre e animada e “Moda Revolta”, que Vitorino fez questão de dedicar à ex-Ministra das Finanças Maria Luís Albuquerque.

E eis que já na reta final, finalmente surge o tema que deu o nome ao concerto “Não Sei do que é que se Trata mas não Concordo”, e que dá tema ao novo álbum com lançamento previsto para 2017, – inspirado numa frase dita por um primo carpinteiro de Vitorino, e cuja história Vitorino partilhou com o público.

E foi bem disposto e com a companhia dos amigos e convidados que avançou para o emblemático “Queda do Império”.

vitorino-015“Perguntei ao vento
Onde foi encontrar
Mago sopro encanto
Nau da vela em cruz
Foi nas ondas do mar
Do mundo inteiro
Terras da perdição
Parco império mil almas
Por pau da canela e mazagão.
……………………………………”

Para o fim ficaram: “Menina Estás à Janela” – a que o público não quis deixar de acompanhar e “Maria da Fonte”.

“Vou-me Embora Vou Partir” … mas tenho esperança” foi o tema escolhido para a despedida, na companhia do Grupo Coral Cantares de Pias, e que terminou em grande uma noite de música memorável.

Da nossa parte só temos a acrescentar “Parabéns Vitorino”, que contes e cantes ainda por muitos mais anos.

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