Eddie Vedder Deixou Lisboa A Imaginar Um Mundo Só Com Música

Reportagem de Tânia Fernandes

A devoção foi o que levou muitos dos que assistiram ao concerto de Eddie Vedder, esta quinta-feira, na Altice Arena, a comprar bilhetes (há meses esgotados) para noite. Os que aplaudiram ontem, sentados, os harmoniosos arranjos para cordas dos temas de Pearl Jam, são os mesmos que pularam com fúria, ao som das mesmas canções, nas versões mais cruas, durante os anos noventa. Uma ligação que tem sido consolidada a copos de vinho tinto.

Muitos brindes, palavras de gratidão e gestos especiais para com o público, ao longo de cerca de duas horas de concerto, explicam esta relação tão forte com o artista.

O quarteto de cordas Red Limo precedeu a entrada do cantor com a passagem por um dos maiores êxitos da banda liderada por Eddie Vedder: “Alive”. O suficiente para emocionar o público que reagiu de forma espontânea, com admiração e aprovação. A proibição de uso de cameras fotográficas ou vídeo e telemóveis, à entrada do recinto – e “recordada” ao longo da noite pelos seguranças – fez toda a diferença na atitude face ao artista. A verdade é que sempre que Eddie Vedder se aproximou das pessoas, viu sorrisos e mãos na sua direção, em vez de um muro de tecnologia. Fez apenas um parêntesis, durante “Imagine”, em que pediu as luzes no ar, de forma a criar um cenário diferente.

Assim, a recepção do público à sua entrada foi explosiva, mas muito humana, de braços no ar a aplaudir o regresso de um herói. Começou com “Far Behind”, abalroou emoções com “Just Breath” e desanuviou o ambiente com as suas primeiras palavras, proferidas em língua portuguesa, lidas de um papel. Recordou que esta foi a sua décima primeira passagem por Portugal e que “é um prazer ver-vos!”. Às hesitações, provenientes da dificuldade em reproduzir o texto, o público respondeu com sonoras gargalhadas e muitos aplausos.

Voltou a pegar em Pearl Jam, uma constante a noite toda, para continuar, com “Elderly Woman Behind the Counter in a Small Town”. E aquele refrão, no timbre grave e rouco, a ficar em loop na memória “Hearts and thoughts they fade, fade away”. Continuou por “I Am Mine” e “Immortality”. É por esta altura que surge um monitor no ecrã de fundo, com as imagens do cantor, a dar detalhes a quem está no fundo da sala.

Os alinhamentos, sempre diferentes de concerto para concerto, têm sempre incluído versões de outras bandas e cantores. “Trouble”, de Cat Stevens foi a primeira homenagem da noite.

“Wishlist” levou-o a recordar o primeiro concerto que os Pearl Jam deram em Cascais, em 1996. Ficou-lhe a impressão de um espaço pequeno (Dramático de Cascais), a albergar uma energia desmedida. O público acabou por se envolver na música e deixar o conforto do lugar para dançar de braços no ar. As luzes, acenderam-se, a espaços, revelando a euforia que até aí se mantinha oculta pela escuridão.

Muitas pausas, ao longo da noite, para partilhar momentos e impressões. Antes de “Driftin’” partilhou uma mensagem que recebeu de um admirador, alguém que viaja pelo mundo e ouve a sua música e acabou por lhe dedicar o tema, assim, como a todos os viajantes e surfistas. Abriu várias garrafas de vinho tinto e serviu copos, na plateia, sempre com a preocupação de saber a quem o estava a fazer. Enterneceu todos, ao brincar com uma menina, de dez anos, que adormeceu nas filas da frente “não façam barulho para não a acordar”. Mas depois de fazer soar a guitarra e, ao saber que era o seu dia de aniversário, ofereceu-lhe a sua harmónica e todos cantámos os parabéns. Pediu para levantarem um cartaz que já havia visto no meio da plateia e que dizia “Your music has saved my sanity” e comentou de seguida, em como tinha salvo também a dele. A música pode ter evoluído ao longo das onze passagens por Portugal, mas a relação tem sido reforçada por atitudes como esta. De quem está para tocar e cantar, mas que também procura estabelecer uma relação e ajudar a criar um mundo melhor.

Depois de “I’m Open” e “Off He Goes”, o quarteto de cordas regressa para “Satellite” e Eddie Vedder vai buscar o ukelele. São várias as causas que tem abraçado, ao longo da sua carreira, e faz questão de explicar que escreveu aquele tema para Lorri Davis , a mulher que se casou com Damien Echols sentenciado à pena de morte. O caso conhecido como “West Memphis Three”, terminou com a absolvição dos três condenados, com a ajuda de artistas e celebridades que acreditavam na inocência dos condenados.

Junta-se-lhes, de seguida, Glen Hansard, o artista indie folk que abriu a noite. Glen, passou para a cadeira principal e Eddie ficou livre para segurar apenas no microfone (e distribuir copos de vinho tinto). Seguiu-se uma sequencia emocionante, com o público a cantar em coro, de pé, ao som de “Black”, “Parting Ways”, “Better Man” e um rock mais bravo em “Lukin” e “Porch”.

Pede licença para se retirar por uns minutos e deixa o público a cantar, ao som de “Jeremy”, pelo quarteto de cordas. No regresso, falou sobre “os tempos estranhos” em que vivemos e mostrou uma instalação artística de JR, sobre a situação na fronteira do México. Juntou a ”I’m So Tired”de Fugazi as palavras de ordem de Patti Smith em “People Have The Power”.

Depois, partilhou a emoção que foi atuar, pela primeira vez, num grande festival, em nome próprio (Sudoeste). Admitiu o seu receio e agradeceu “vocês foram perfeitos!”. Deu então licença para retirar o telemóvel da algibeira e iluminar o ambiente, para voltar a tocar “Imagine”, de John Lennon, em Lisboa.

O ambiente tornou-se cada vez mais caloroso, com Eddie a distribuir vinho pelos próximos. Em “Song of Good Hope”, tema de Glen Hansard, o cantor desce à plateia para falar e cumprimentar o público (eufórico!).

Continuou para “Smile”, como a simpática memória de que é mais uma música que lhe faz lembrar Portugal e que também tocaram em Cascais. E um “Society” de perfurar corações, que terminou numa desgarrada de guitarras entre Eddie Vedder e Glen Hansard. “Hard Sun” foi a mensagem ecológica da noite e depois de uma breve saída, a despedida fez-se com muita alegria (e brindes com vinho) ao som de “Indifference” e “Rockin’ in the Free World”, o tema de Neil Young.

Foi uma noite que vai ficar na memória. Pelo alinhamento tão satisfatório, assim como pela entrega do músico. Um brinde Eddie Vedder!

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