Descobrir O Pico E O Faial Através Das Obras De Nemésio, Tabucchi, Romana Petri Ou Joel Neto

Reportagem de Elsa Furtado (Texto) e Tânia Fernandes (Fotos e Vídeo)

Açores dos Escritores

Ler faz-nos viajar, faz-nos sonhar e alguns livros, alguns escritores têm o dom de nos fazer alhear do mundo que nos rodeia e entrar verdadeiramente na estória que estamos a ler, ao ponto de nos esquecermos de onde estamos e nos sentirmos a passear pelas ruas e pelos lugares descritos e conviver com as personagens imaginadas, fazer parte da estória.

Muita das vezes ao ler um livro, sentimos que estamos no local onde se passa a acção, ou ficamos com uma vontade enorme de conhecer os locais, visitar os espaços, “conhecer” as personagens e às vezes, até ficar a saber  o que estava a sentir ou a pensar o autor quando escreveu determinada obra ou criou determinada personagem, o seu estado de alma, o seu interior.

Desde há muitos anos os Açores atraíram vários escritores, nacionais e estrangeiros, para além dos locais e os inspiraram a escrever obras que marcaram o nosso imaginário literários e a criar personagens para sempre eternas.

Para os fãs de Literatura e não só, vai ser possível entrar e “mergulhar” agora em algumas obras cuja estória se passa nos Açores, e penetrar no universo de alguns romances escritos por autores conhecidos como Vitorino Nemésio, Mark Twain, António Tabucci, Romana Petri ou Joel Neto, num programa da autoria de Luís Daniel.

Começamos a nossa aventura numa viagem pelas ilhas do Faial e do Pico, a piscar o olho a São Jorge (se por ventura houver ligação de barco) com o novo programa turístico – cultural: Açores dos Escritores.

Açores dos Escritores

O programa convida-nos a mergulhar no universo de algumas obras e autores que escolheram os Açores como cenário e conhecer algumas personagem das suas estórias, dos seus romances, durante três dias mergulhamos numa viagem com muitas surpresas e descobertas onde o verde, o mar e a insularidade são também protagonistas.

Começamos a nossa aventura no Faial, na companhia de Raul Brandão com As Ilhas Desconhecidas e a A Viagem dos Inocentes de Mark Twain e ainda Vitorino Nemésio, pela parte rural da ilha do Faial. Vamos até ao Monte de Espalamaca e paramos no Miradouro Nossa Senhora da Conceição, onde somos surpreendidos pela característica Mulher do Capote e onde nos deslumbramos com a vista da Horta. As palavras dos escritores citados fazem-nos companhia, a par do vento que passa.

Açores dos Escritores

O mesmo vento que fazia girar as velas dos moinhos de vento que vamos encontrando pelo caminho, num vale onde os moinhos são mais que moinhos, são também testemunho da presença flamenga na ilha, e da mistura de flamengos com portugueses.

O vermelho destes “gigantes”, o mar e o verde foram imortalizados nas palavras de Mark Twain, agora recordadas numa leitura no local. Fechamos os olhos, e conseguimos imaginar aqui Twain e Brandão e o que sentiram ao ver esta paisagem sem igual, com as ilhas vizinhas a espreitar ao longe.

Segue-se uma pausa para almoço, o Restaurante Pasquinha em Canada do Mestre foi o local escolhido, onde nos deliciámos com uma saborosa sopa de legumes e um delicioso bife de atum.

Açores dos Escritores

Para a tarde fica reservada  a visita ao Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos. Os vulcões e as suas erupções marcaram e muito a vivência e a vida dos Açoreanos, especialmente por este lado do arquipélago, desde a incerteza à emigração, é raro o escritor açoreano que não transpôs para palavras esta relação de angústia e incerteza.

A paisagem é impressionante, tal como a história e o que aprendemos nos Capelinhos, e nem a chuva abundante nos afasta deste cenário, criado pela natureza.

 

Para a noite está guardado um grande nome da Literatura Europeia contemporânea: António Tabucchi e o seu romance – A Mulher do Porto Pim.

Aqui, somos convidados a mergulhar no próprio romance,  e viver, sentir a estória como observador privilegiado, conviver com as “personagens”, caminhar e passear pelos mesmos lugares que a protagonista do romance do autor italiano, entrar pelo livro adentro de forma que quase parece que conseguimos ouvir o que o autor estava a pensar quando escreveu a estória.

A noite começa no Restaurante Canto da Doca, onde encontramos o “baleeiro assassino” e o seu violão, tal como Tabucchi descreve, uma leitura em off acompanha-nos ao longo do jantar em pedra vulcânica, com música ao vivo, tal como no livro, e das páginas de A Mulher do Porto Pim surge pela sala uma mulher “de pescoço alto” vestida de branco, com elegância mas ao mesmo tempo um certo ar fantasmagórico (afinal, já foi assassinada há 30 anos e é apenas um espírito).

E é este espectro que nos convida a sair do espaço e segui-la pela noite adentro, ao som de uma música melancólica até ao Porto Pim, onde tudo acontece. Aqui, o barulho das ondas e do violino transportam-nos para a cena do crime, como se lá estivéssemos realmente.

Uma recriação muito fiel e viva realizada por um conjunto de atores e músicos especiais, como Alexander Iupatov e Maryam Al-Rawashdeh, a violinista Micaela Sousa e o ator Manuel Fernando Martins, entre outros.

Açores dos Escritores

O segundo dia do programa inclui um dos momentos mais ansiados da viagem, a famosa travessia do Canal (entre o Faial e o Pico), que se espera tranquila. E ao subirmos para o barco, só um autor nos pode acompanhar, Vitorino Nemésio e o seu Mau Tempo No Canal, publicado em 1944.

A canoa ia quase à bolina arrasada, e a lancha, embora cada vez mais recuada, parecia andar bem.Margarida, agora embalada naquela surpresa de vento, vela, água e miragem de baleia, ia deixando-se levar. A canoa, às vezes adornada da manobra, roçava a borda no gume fresco e vivo do mar. As nuvens açorianas, a princípio paradas e aos pares,

(Nuvens paradas, cor de cobre,
É temporal que se descobre).

deslaçavam-se agora finas e leves, como se o Pico fosse um açafate de penas sopradas. Vinha de terra um cheirinho a figueira e a bafo de lava quente. E, como um belo arco-íris, armado para os lados de São Jorge, arroxeasse o horizonte, o João da Cezilha, voltando-se para Margarida com cara de criança apanhada de boca na botija, disse manhosamente:

– Hã… menina Bidinha! Olha o arco-da-velha… A menina estreia-se cum sorte!

                       

in Mau Tempo no Canal, Vitorino Nemésio

Depois de uma primeira abordagem ao autor açoriano, nascido na Terceira, na Praia da Vitória, “penetramos” agora na sua obra mais conhecida e imortal, que marcou não só a Literatura Açoriana, mas também a Literatura Nacional.

Depois de deixarmos o Faial, chegamos ao Pico e entramos no mundo do vinho, e ficamos a conhecer o universo de João Garcia e de Margarida Clark Dulmo, os protagonistas do romance icónico de Nemésio.

Com o barulho do mar em fundo, a música e a alma açoriana revelam-se na “Canção Açoriana” da autoria de Zeca Medeiros, interpretada por Pilar Silvestre, acompanhada ao piano pelo maestro Carlos Frazão. Seguem-se outros temas que também nos descrevem este viver e sentir insular. Uma sensação de tristeza, de perda, de algo que falta, mas não se consegue explicar bem o quê.

Canção Açoriana

Oh sapateira, teia que me prendes
Neste novelo de tantas inquietações
Amarga e doce, minha lira que se acende
Nesta viola que há-de ter dois corações
Pedras tão negras, tatuadas pelo vento
Pedras queimadas pelo rocio do mar
São sentinelas da saudade e do lamento
De estar tão longe, meu amor, do teu olhar
Vai minha galera
Navegar o mar imenso
Nas marés que o tempo amanheceu
Nesta longa espera
Sei que ainda te pertenço
Pois sei que a nossa lira não morreu

letra e música: Zeca Medeiros

No Pico, descobrimos o Porto Velho, a zona da Madalena, os vinhedos, o Guindastre (junto ao antigo Solar dos Arriaga, da família de Manuel de Arriaga), na companhia de Manuel Tomás Costa, que nos dá a conhecer de forma mais intima Mau Tempo no Canal e os locais onde decorre a acção.

Pelo meio ficamos a conhecer histórias de piratas e de contrabando de outros tempos, não tão longínquos assim.

Açores dos Escritores

A força e o barulho das ondas fazem nos companhia e impressionam-nos com a sua beleza, afinal, não há nada mais bonito que a Natureza no seu estado puro e selvagem, e aqui, no Pico, isso ainda é possível de observar.

Do romantismo e melancolia de Margarida passamos à coragem e força dos baleeiros. No Pico e no Faial, estes homens eram o sustento das suas casas, os audazes e destemidos que enfrentavam as ondas e as grandes criaturas marinhas, o pilar da economia local, heróis do dia a dia, inspiração para contos e livros.

António Tabucchi foi à sua procura, Nemésio descreve-os como ninguém, Almeida Firmino captou-lhes a essência e Dias de Melo imortalizou-os na sua obra como Mar Pela Proa, para só mencionar alguns.

 

 

Atualmente, já não é possível chegar ao porto e ver sair os homens em botes para caçar os grandes cetáceos, mas neste segundo dia do programa, é possível viajar no tempo, e vê-los a partir do Cais do Pico junto junto à antiga fábrica da baleia, com os seus arpões e lancetas, ouvir as suas conversas, assistir ao medo e às orações de quem fica em terra. Mais tarde, no Museu dos Baleeiros, o diretor Manuel Francisco Costa, fala-nos um pouco desta atividade, da sua importância na ilha e da vida e sofrimento destes homens. Uma visita pelo museu dá-nos a conhecer objetos feitos a partir das baleias e também usados na caça à baleia. O momento termina com a evocação de Dias de Melo.

Fazemos o percurso sempre junto ao mar, com o murmulhar do mar como companheiro, está na altura de parar e ouvir Manuel Fernando Martins, interpretar o poema “Ilha Maior” de Almeida Firmino acompanhado ao violino por Micaela Sousa, numa composição de Carlos Frazão.

Minha ilha sem bruma
Sem distância a percorrer
Onde o vento é donatário
Único senhor e rei
Sem eu mesmo o saber.
Ilha maior no sonho e na desgraça
Sempre a acenar a quem de longe passa

…………………………………….

 

Almeida Firmino

Mas nem só a poesia e a música marcam a visita, a Gastronomia também desempenha um papel importante e marca presença na obras de alguns escritores, visitar o Pico é por isso, também pretexto para provar algumas iguarias gastronómicas, os vinhos e queijos locais.

Mas não podemos vir ao Pico sem falar de Romana Petri e da Senhora dos Açores, romance publicado em 2001.

Com Romana Petri ficamos a conhecer um pouco melhor a população local, as suas casas, as suas característicos, alguns hábitos e tradições, como a dança da “Chamarrita”, a que podemos assistir e até participar com o Grupo Folclórico das Bandeiras, numa atuação especial para os visitantes.

A Vila da Madalena, a costa e as suas casas de veraneio (também conhecidas como Adegas), o lugar do Cachorro, o Lugar dos Arcos em Santa Luzia, são algumas das zonas que ficamos a conhecer pelos olhos de “Maldina” e outros personagens locais, para além da narradora.

E, alegrem-se os fãs da autora italiana, sempre que possível, ela vai juntar-se à visita, numa breve conversa via vídeo com os participantes e falar da sua Senhora dos Açores.

O terceiro e último dia do programa está reservado para a Horta e para a época áurea que a ilha viveu, recriada e relembrada em Meridiano 28, de Joel Neto, jornalista e escritor nascido em Angra do Heroísmo, em 1974.

Este é talvez o dia mais cinematográfico do programa, é aquele em que além de “entrarmos” pelas páginas do livro, sentimo-nos também a viver e a assistir a um filme de época.

Ilha do Faial – 1939

Era O Melhor Dos Tempos, Era O Pior Dos Tempos, Era A Idade Da Sabedoria, Era A Idade Da Loucura, Era A Idade Da Fé, Era A Idade Da Incredulidade, Era A Estação Da Luz, Era A Estação das Trevas.

Joel Neto – Meridiano 28 – Capítulo IV

 

A acção do livro de Joel Neto centra-se essencialmente na Horta de 1939, (embora passe por várias cidades como Nova Iorque, Praga, ou Porto Alegre) numa altura em que o Mundo entrava na Segunda Guerra Mundial , mas no Faial ingleses e alemães continuavam a viver harmoniosamente, entre festas, escola, jogos de ténis e croquet, ou um Gin no Peter’s, e é esta cidade moderna, cosmopolita e animada que vamos conhecer a pé, com as músicas de Glenn Miller ou Marlene Dietrich em fundo.

A visita começa na elitista Sociedade Amor da Pátria, clube respeitável da cidade, onde se passam várias cenas do livro. Aqui somos recebidos ao som de Bach, interpretado por Anastasyia Sokovikova ao piano, à nossa espera no Salão Nobre está a Dra. Catarina Azevedo para nos falar da obra e da Horta desta época.

E é assim que ficamos a saber, que esta pequena cidade açoriana, teve um papel estratégico e muito importante, tendo vivido verdadeiros momentos hollywoodescos, com ingleses e alemães à mistura, e alguns americanos, até meados do século XX.

Fechamos os olhos e conseguimos-nos imaginar num elegante baile ao som de “Moonlight Serenade”.

Altura de sair para a rua, embebidos do espírito dos anos 30, e passo a passo, entre uma rua e outra, vamos conhecendo os locais onde decorre a narrativa, de repente cruzamo-nos com soldados ingleses, alemães e até senhoras americanas, afinal, estamos em 1939, e a Horta é habitada por cidadãos de várias partes do mundo. A meio do passeio damos por nós em plena Colónia Alemã, onde podemos assistir à aula de botânica de Frau Neumann, em alemão, inglês e português, para jovens alemãs, e nos podemos deslumbrar com os vitrais que representam os reinos que constituíram a Alemanha no passado áureo, realizados pela conceituada casa vitralista alemã Schneiders & Schmolz, de Colónia (estes foram alvo de restauro em 2012 pelo vitralista português Paulo Patacão).

Seguimos viagem pela rua Cônsul Dabney, eixo dos cabos telegráficos, local de residência de vários personagens da obra, até ao Largo do Infante, ao Peter – Café Sport, um local icónico da Horta e por onde passaram tantos personagens e tantos autores ao longo das décadas.

Ponto de paragem obrigatória numa visita à Horta e ao Faial, o Peter’s é incontornável, ninguém deixa a ilha sem beber um gin, que virou ex-libris da casa devido à grande afluência de ingleses e outros estrangeiros (americanos, alemães) que trabalhavam nas Companhias de Cabos Telegráficos (e não só) e aqui vinham beber um copo e socializar.

Hoje, todos conhecem o bar, com uma baleia no logótipo, mas poucos sabem que até 1975, o emblema da casa era uma águia que fez parte de um baleeiro, e que ainda hoje podemos observar na sala principal a par de bandeiras oferecidas pelos inúmeros velejadores e marinheiros que por aqui passaram e passam, mesmo em tempos de pandemia.

Mas a localização da Horta torna-a estratégica e privilegiada não só para os barcos, mas também para os submarinos e para os hidroaviões, tendo esta zona sido em tempos local de amaragem de hidroaviões Clippers da Pan American e outros, tal como vimos nos filmes americanos.

Açores dos Escritores

E por falar em filmes, por aqui pararam também muitos aviões saídos de Lisboa com judeus que fugiam da Europa na Segunda Guerra Mundial a caminho da América, momentos relembrados numa visita ao Café Internacional, símbolo de uma cidade cosmopolita e muito movimentada. Por pouco, não nos “cruzamos” com Elza, a fugir de Casablanca e dos nazis a caminho da América, mas ainda temos tempo para uma bebida e ouvir “As Time Goes By”, de Casablanca, interpretado pelo versátil Alexander Iupatov e acompanhado de Carlos Frazão ao piano, deixando no ar um misto de nostalgia e romance.

Açores dos Escritores

E é com o som do piano de “Sam” nos ouvidos que nos despedimos da misteriosa e cosmopolita Horta de outros tempos, e regressamos a casa. Acompanha-nos uma vontade de ler e descobrir mais sobre estes autores, estas obras, e estas ilhas, e voltar em breve para uma nova aventura, talvez em Angra do Heroísmo ou em São Miguel, quem sabe o que nos espera.

O programa – Açores dos Escritores, Pico e Faial tem a duração de três dias, vai estar disponível na agência MBTravel, para um máximo de 25 a 30 pessoas por partida, e terá duas opções: programa completo, com voos desde Lisboa, com um valor aproximado de cerca de 980 euros, com taxas incluídas; e outro sem voo, por 840 euros. Os participantes vão ficar alojados no Azoris Faial Garden Resort. As datas para a realização do programa Açores dos Escritores – Faial e Pico são a 11 de março, 18 novembro e 8 dezembro de 2022; 27 de janeiro, 18 de fevereiro e 17 de março de 2023.

O C&H viajou a convite de Luís Daniel, da MBTravel e da ATA – Associação de Turismo dos Açores 

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