Deixem O Pimba Celebrar O Amor

Reportagem de Tânia Fernandes e António Silva

Deixem o Pimba em Paz

Os concertos de celebração do dia de São Valentim, inseridos no âmbito do Festival Montepio Às Vezes O Amor, tiveram finalmente autorização para acontecer. A 30 de abril, no Coliseu de Lisboa (e no dia anterior no Porto) coube o espetáculo Deixem o Pimba em Paz. Mais duas salas esgotadas, a confirmar o sucesso desta reconstrução do que de mais popular existe no cancioneiro nacional.

Canta-se o Amor mas também outras dores da alma. Despem-se os temas originais do ambiente rural e dá-se-lhes a dignidade de um conjunto de baile, trocando os instrumentos populares por um piano e um contrabaixo. Indumentária a rigor, onde predomina o branco e gravatas a compor. Não há cá excessos de cor ou bailarinas avantajadas. Só letras lascivas.

Há sete anos na estrada, Deixem o Pimba em Paz é um espetáculo que faz sucesso de norte a sul do país. A receita do sucesso? A junção de um humorista com um conjunto de bons músicos. Bruno Nogueira faz o papel de maestro, ainda que seja o único cuja carreira passa à margem da música. Conseguiu reunir, neste projeto, músicos dispostos a dar outra envolvente musical a temas que ficaram conhecidos, pelas letras que, certamente, os fizeram rir, na hora de as transformar em assunto sério. São eles Manuela Azevedo, Nuno Rafael, Filipe Melo e Nelson Cascais.

Há temas cujos arranjos são tão diferentes das canções originais, que só mesmo pela sequência de versos lá chegámos. E a reação geral do público é efusiva, de alegria e boa disposição. Em grande contraste com a seriedade dos intérpretes, que assumem o seu papel, sem se desmanchar.

Bruno Nogueira pode não ter a voz mais adequada à arte do canto, mas a verdade é que se defende bem, ao longo do espetáculo. Declama em “24 Rosas”, distorce a voz em “Na Minha Cama com Ela” e vamo-nos habituando a esta paródia, levada muito a sério, que nos faz recordar aqueles temas que todos sabem se cor.

Nos intervalos da música, há bons momentos de humor, conduzidos pelo maestro de serviço. No seu estilo habitual, insulta os próximos, mete-se com o público e tece considerações generalistas, como se estivesse a propagar verdades absolutas sobre o mundo. O público perde-se de riso e bate palmas, a acompanhar momentos épicos como “Comunhão de Bens” ou “Bela Portuguesa”.

Ninguém fica indiferente à grande entrada de percussão de “Já Não Sou Bebé”, ou à beleza da melodia que acompanha “A Garagem da Vizinha”, num dueto acústico mais intimista de Bruno Nogueira com Nuno Rafael, o músico que, com o humorista, esteve na origem espetáculo.

A homenagem à música portuguesa estende-se à forma e quando todos se “debruçam” sobre o acordeão, não há como não sentir a importância do instrumento. E admiração, quando interpretam, de seguida, “O Melhor Dia Para Casar” num puxa/ empurra de acordeão entre Bruno Nogueira e Filipe Melo.
Depois dos clássicos incontornáveis “Mãe Querida” e “Ninguém Ninguém”, Bruno Nogueira estende-se num grande agradecimento/ insulto aos músicos que o acompanham. Assume o papel de personagem odiosa, a quem todos devem um agradecimento (ninguém faz tão bem quanto ele!). As respostas chegam em forma de gargalhadas, do público. É o momento de standup, numa espécie de improviso em que o próprio chega a ter dificuldades em segurar o papel para não se rir também, tamanha não será a contradição entre o que diz e o que realmente está a pensar. Segue-se uma versão jazzy de “Não és Homem Pr’a Mim” seguida de “Taras e Manias”.

Encore?

Sabem aquele momento em que os músicos saem todos de palco e parece que o espetáculo acabou, só para que o público fique a espernear pelo seu regresso. A pandemia levou. Como explicou o humorista, com o papel do alinhamento debaixo de olho, “Para vocês não se levantarem e fazerem merdas, este é o momento em que fingimos que saímos e voltamos a entrar”.

E o final começa com os “Peitos da Cabritinha” em modo canção de embalar, à qual não falta um solo de flauta, interpretado por Manuela Azevedo, seguido de um medley de vários outros temas cujas metáforas voltem as palavras “Tomates”, “Pito” e “Padaria”, num crescendo de intensidade.

Em momento de desconfinamento, o amor celebra-se em segurança, com lugares intercalados. Os abraços e amassos ficam para depois, de uma noite em que se pode voltar a ter a experiência de assistir a um espetáculo de música e humor, ao vivo.

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