Crónica: Cultura Para Todos

Por Óscar Enrech Casaleiro

10. Para Que Serve Uma Livraria de Rua?

Confesso que tenho uma debilidade pelas livrarias de rua. O mais estranho é que não consigo explicar porquê. Sei porque gosto de uma panacota de frutos vermelhos ou de uma tarte de limão, mas a sensação de poder estar na rua e entrar numa loja repleta de livros não tenho capacidade de a justificar. Na verdade o melhor até é ir sem a finalidade de comprar um livro. É suficiente deambular pelos corredores, folhear um livro e estar por ali. Custa-me por isso viver com o seu desaparecimento galopante, que tem vindo a piorar nos últimos anos. Ao mesmo tempo multiplicam-se as livrarias dos grandes grupos económicos trancadas em centros comerciais.

Vem isto a propósito da livraria de rua da terra onde vivo, e que é certamente uma das livrarias mais bonitas de Portugal. Foi adaptada a partir de uma casa tradicional com portão, um pequeno alpendre e jardim. Impossível não gostar. É lá que vou espreitar as novidades e comprar as obras que me interessam, por achar que o local onde decido comprar livros é a minha forma de intervir e ajudar a manter estes locais. Evito por isso a todo o custo as cadeias livreiras. No entanto o caminho não é óbvio. A última vez que fui à “minha livraria” encomendei um livro de uma escritora portuguesa que está a ter algum sucesso. Como sempre acontece ficou prometido o envio de um sms a avisar da chegada da publicação. E ela chegou … duas semanas depois!

Conheço a dificuldade da distribuição de livros em Portugal, mas, não havia nenhuma razão suficientemente forte para este atraso. No dia em que fui levantar a minha encomenda estava aborrecido e a ponderar deixar os meus lirismos pelas livrarias de rua e aterrar nas concorrentes ponderosas dos centros comerciais, dos seus cartões cliente, das técnicas de marketing poderosas e rapidez no atendimento. Mas, no final, depois de pagar ouvi: “Obrigado por ter esperado pelo livro”. Ah pois aí confirmei porque gosto tanto deste tipo de lojas. Pelo tratamento humano e cara a cara. Numa época em que comunicamos por mensagens, emojis e gifs, continuo a dar valor à “atenção” e ao cuidado verbal com o cliente. E a comprar nestas livrarias de rua enquanto existirem.

Por Óscar Enrech Casaleiro – Comunicador cultural desde 1997, atento à atualidade desde sempre.

N.R.: Esta crónica tem periodicidade quinzenal e é da inteira responsabilidade do seu autor

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