Crónica: Cultura Para Todos

Por Óscar Enrech Casaleiro

8. Para Que Serve Um Teatro Vazio?

Ultimamente tenho conhecido estranhas situações de casas que, embora tenham donos, encontram-se vazias. Num tempo em que a especulação lisboeta faz com que qualquer pedaço de chão se venda mais depressa do que um pastel de Belém, as casas sem vida de alguns municípios portugueses onde estas propriedades não são penalizadas mantêm-se orgulhosamente a despedaçar-se sem se vislumbrar um aviso de venda. E as razões são muito simples: os proprietários não têm necessidades financeiras, os impostos que pagam são suportáveis ou evitam transmitir a imagem para vizinhos e amigos que estão a vender o património familiar. Como vender uma casa de família sem manchar a reputação de alguém que sempre aparentou ser pelo menos economicamente remediado? Mas, se a casa está vazia e já não vive lá ninguém, para que serve?

Estas são algumas dúvidas que me assaltam o espírito quando passeio pelas ruas do centro do local onde vivo, cuja concentração de casas abandonadas relembra as paisagens tristes das cidades alemãs bombardeadas depois da segunda guerra mundial. Por isso, foi com espanto que li a notícia da existência de um pequeno teatro de Portalegre que se encontrava à venda num conhecido site português que tanto vende máquinas de lavar roupa como … salas de teatro.

A minha primeira reação foi de choque e de culpabilização da proprietária: como era possível alguém colocar à venda na internet uma sala de teatro antiga numa cidade onde rareiam os espaços culturais, ainda por cima num site, como se fosse uma simples mercadoria? Mas, pouco a pouco, fui-me deparando com curiosos factos: a sala não se encontra sequer classificada apesar do seu interesse patrimonial e das suas particularidades arquitetónicas, estava há anos vazia e já tinha sido proposta à autarquia a sua aquisição, embora sem sucesso. Finalmente, quando percebi que estava à venda há algum tempo embora só agora fosse noticiada, achei preferível ir além da espuma dos likes de indignação que a história suscitou.

Num Portugal ideal o teatro estaria classificado pelo seu interesse cultural, a Câmara Municipal iria comprar o espaço cultural após o contacto da proprietária e definiria uma programação própria e complementar aos restantes equipamentos culturais que detém. Mas, há um pequeno problema: o Portugal ideal não existe.

Por Óscar Enrech Casaleiro – Comunicador cultural desde 1997, atento à atualidade desde sempre. 

N.R.: Esta crónica tem periodicidade quinzenal e é da inteira responsabilidade do seu autor

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