Crónica: Cultura Para Todos

Nº 46: Para Que Serve Um Fotojornalista?

A massificação da internet, dos smartphones e das redes sociais veio indiscutivelmente facilitar as nossas vidas, e sim, eu sei que dizê-lo é um clichê. No entanto trouxe, dentro dos inconvenientes, a falsa sensação de qualquer um de nós pensar que pode ser fotógrafo, jornalista, pasteleiro ou eletricista. Basta ir ao youtube assistir a um tutorial de um especialista ou observar com atenção a um direto do Instagram com um título tão sugestivo como “Aprenda a fotografar como um mestre em 10 minutos”. Estes ensinamentos compactos associados a um telemóvel com 30 megapixéis e quatro lentes fazem de nós um verdadeiro fotojornalista, verdade?

Não é verdade. As coisas não funcionam assim.

Vem isto a propósito de trabalhos de alguns fotojornalistas que são divulgados também através das suas contas na rede social Instagram. É esse o caso de Luís Filipe Catarino, que no seu percurso profissional, além de fotojornalista do Expresso e da revista Volta ao Mundo, foi também um dos fundadores da agência 4see, que promove o fotojornalismo português. Mas não só. Foi durante dez anos fotógrafo oficial do anterior Presidente da República Aníbal Cavaco Silva (de 2006 a 2016). Este é um trabalho intenso e complexo em que o profissional tem de captar cada momento da atividade presidencial sem perder o seu estilo. E na verdade Luís Filipe Catarino conseguia fazer esse diário da figura política em questão com vários momentos em que atingia grandes acertos fotográficos (pela composição, luminosidade ou até pela emoção que as suas fotografias transmitiam).

Na sua conta de Instagram (@ansumane) dá a conhecer vários momentos do seu trabalho particularmente bem conseguido em duas imagens que destaco. Assim acontece na fotografia da Fonte Luminosa, em Lisboa, captada de cima, com um adulto a brincar com uma criança, ambos parecem minúsculos com a sua enorme sombra  perante “o olhar” de uma escultura da Fonte Monumental (da Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa) que os observa, impassível. Na segunda imagem, captada já durante o período da pandemia, mostra uma mulher jovem que circula de máscara e luvas colocadas, fotografada através do pormenor de um gradeamento que nos remete para a mira telescópica de uma arma, como se o vírus estivesse pronto a atacar.

O melhor do trabalho dos fotojornalistas é essa capacidade de nos surpreender.

Por Óscar Enrech Casaleiro – Comunicador cultural desde 1997, atento à atualidade desde sempre.

N.R.: Esta crónica tem periodicidade quinzenal e é da inteira responsabilidade do seu autor

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