Crónica: Cultura Para Todos

Nº 43: Para Que Serve A Coleção De Arte Contemporânea Do Estado?

Embora não me entusiasme a ideia de ir à pesca, sempre fui partidário de ensinar a pescar e não em escolher a cana melhor do mercado já que não é por isso que vou capturar mais peixes. Vem isto a propósito do anúncio formal de aquisição de novas obras de Arte Contemporânea que vão passar a pertencer à coleção do Estado. Tudo no valor de meio milhão de euros. O propósito político é claro: quando a classe artística ainda sofre os efeitos da pandemia que limitaram a possibilidade de dar a conhecer o seu trabalho, o executivo aplicou um pacote financeiro comprando ao mercado as obras de arte que entendeu, certamente seguindo uma linha coerente de curadoria. 

Sabemos que as peças vão circular por diferentes museus e o espólio pode ter uma visibilidade internacional para dar maior exposição pública aos nomes portugueses representados. Apoiam-se os artistas plásticos e estimula-se o mercado da arte, até aqui tudo bem. No entanto importa questionar para que servem estas obras? Quem as vai ver? E chegado a este ponto é inevitável questionarmo-nos como é que esta compra não veio acompanhada por uma política de Educação para a Arte. E não, não falo apenas das crianças como destinatários mas das diferentes faixas da população portuguesa. 

A questão é óbvia: como é que o público pode dar importância à coleção de Arte do Estado sem conseguir descodificá-la? Ou seja, como vai entendê-la sem saber quem é o artista, qual a sua obra, os seus anseios ou o porquê do seu estilo. E a um nível mais abrangente: como se pode estimular a compra de arte contemporânea também pela população se não for entendida e apreciada essa arte mais recente? Na verdade a educação artística pode ser alargada a outros campos artísticos (Cinema, Teatro, Leitura..). 

Porque é que não há uma política nacional eficaz e abrangente de Educação pela Arte, além daquela que é feita caso a caso por diferentes instituições culturais? A resposta é simples: porque não dá votos, já que demora vários anos a ter resultados práticos, enquanto a aquisição de obras de Arte, havendo verba em orçamento, pode ser feita num curto prazo de tempo.

Por Óscar Enrech Casaleiro – Comunicador cultural desde 1997, atento à atualidade desde sempre.

N.R.: Esta crónica tem periodicidade quinzenal e é da inteira responsabilidade do seu autor

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