Crónica: Cultura Para Todos

5. Para Que Serve O Património Imaterial da Humanidade da UNESCO?

Há poucos anos atrás costumava almoçar num snack-bar de Lisboa por menos de cinco euros. Incluía (sim, vou parecer um reformado chato a vangloriar-se duma boa
pechincha) prato, bebida, pão, sopa e café. O sítio era modesto mas a D. Graça (a proprietária) julgava ter uma capacidade de marketing eficaz. Mas não tinha. Das primeiras vezes ainda me deixei enfeitiçar pelas suas palavras sobre a feijoada de chocos (“uma maravilha, e cheira tão bem!”), ou a posta mirandesa (“já viu este naco tão grossinho, uma maravilha e cheira tão bem!”). Tudo mudou quando ela me apresentou um prato de iscas à portuguesa. “D. Graça, esta é a única coisa que não consigo comer”. Ficou surpreendida e respondeu “Não diga isso, olhe para esta maravilha, cheira tão bem.” Para a D. Graça tudo era igualmente bom independentemente se gostássemos ou não.

Vem isto a propósito das classificações de Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, que, desde há mais de 15 nos quer demonstrar que tudo é igualmente bom e importante, a julgar pelo número crescente de bens imateriais classificados como património de todos os seres humanos. O propósito é nobre: salvaguardar o Património Cultural Imaterial de todo o mundo, que, por não ser usufruído nem valorizado da mesma forma que o imóvel, corre o risco de se perder.

O problema é que desde 2011, quando o Fado foi a primeira candidatura portuguesa a conseguir esse carimbo, este tipo de classificação tornou-se uma espécie de arraial minhoto, aprovando-se candidaturas (de inúmeros países, incluindo Portugal) referentes às áreas mais díspares. A partir do momento em que os diferentes tipos de Património Imaterial foram colocados no mesmo caldeirão como um todo indistinto surgiu uma febre de candidaturas. Senão vejamos: a Dieta Mediterrânica, o Chocalho Alentejano ou a Falcoaria estão todas ao mesmo nível de importância? E o que dizer das futuras candidaturas do Carnaval de Torres Vedras ou do bombo? Fica a dúvida se há o risco de se perderem tradições efectivamente ancestrais, ou se esta classificação da UNESCO serve acima de tudo como promoção turística. Faz-me lembrar um pouco o efeito Jardim Zoológico, perde-se em naturalidade o que se ganha em protecção.

Longe vão os tempos quando em 1983 chegava a notícia da classificação de Património da Humanidade o centro histórico de Angra do Heroísmo, um feito assinalável, só comparável à estreia nesse ano do Tal Canal (para quando a sua candidatura a Património Imaterial da Humanidade?). Com o decorrer do tempo estas classificações massificaram-se tal como o próprio turismo que a serve.

Afinal, de que serve esta protecção da UNESCO? Será que corremos o risco do património imaterial da humanidade servir de estudo para os académicos e depois observado através de uma vitrine de museu numa espécie de “artesanato ao vivo”? Se assim for a D. Graça que se cuide, em breve terá as suas iscas à portuguesa classificadas como Património Imaterial da Humanidade.

Por Óscar Enrech Casaleiro – Comunicador cultural desde 1997, atento à atualidade desde sempre. 

N.R.: Esta crónica tem periodicidade quinzenal e é da inteira responsabilidade do seu autor

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