Crónica: Cultura Para Todos

Nº 40: Para Que Serve Apagar Certos Momentos Da História De Portugal?

A resposta é muito simples: para nada. Por vezes arrependemo-nos de determinados comportamentos ou daquilo que dizemos e podemos até desculparmo-nos. Mas adiantava apagar esses momentos da nossa vida que pertencem à natureza contraditória do homem? O mesmo se passa em relação aos factos históricos e à forma como os mesmos são tratados pela cultura ao longo dos tempos.

Vem isto a propósito da conjuntura que vivemos causada pela terrível forma como George Floyd morreu sufocado, causado pelo comportamento indecente de um polícia. O impacto desta situação claramente racista alastrou-se a outras manifestações culturais de uma forma contraditória, num percurso dentro do pensamento “politicamente correto” que começa a ser preocupante.

Iniciou-se com a deposição e destruição de estátuas que, de alguma forma, tiveram alegadas “manchas negras” no seu passado (Colombo, Churchill ou o Padre António Vieira). Incendiadas, destruídas e vandalizadas estas representações de personagens históricas eram também obras de arte. Mas nada disso teve relevância, numa postura que pouco se afastou de outros tristes momentos do passado recente.

Seguiu-se a estranha atitude da cadeia de streaming HBO, que decidiu retirar o filme E Tudo o Vento Levou do seu menu de programação, para depois ser novamente reposto com a devida contextualização histórica. Esta obra foi produzida em 1939, com muitas marcas de uma época onde a discriminação racial era comum. O revisionismo histórico para diabolizar o passado não é saudável. Além da postura paternalista, esta entidade subestima o seu público, que, na era da hiperinformação em que vivemos pode extrair toda a informação sobre este filme em qualquer motor de busca.

O que dizer de O Pai Tirano, O Pátio das Cantigas ou a Canção de Lisboa, que são de forma mais ou menos subtil uma certa apologia da ideologia salazarista, mas, em simultâneo, divertidas comédias de costumes? Vão também ser censurados?

Por Óscar Enrech Casaleiro – Comunicador cultural desde 1997, atento à atualidade desde sempre.

N.R.: Esta crónica tem periodicidade quinzenal e é da inteira responsabilidade do seu autor

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