Crónica: Cultura Para Todos

Nº 38: Para Que Serve O Percurso Privado De Um Artista?

Uma das características da idade adulta é a capacidade (ou a falta dela) de nos desapontarmos com algumas pessoas com as quais nos relacionamos. Concluímos que estas pareciam ter determinadas características que afinal não se revelaram ser exatamente assim, ou surgem circunstâncias que nos ultrapassam que acabam por ditar o afastamento. É uma inevitabilidade que pode ser depois compensada pela capacidade de descobrir novas amizades. Antes da massificação da internet e das redes sociais isso também acontecia com os artistas e o seu percurso artístico. 

Até ao final da década de 1990 era um admirador confesso dos filmes de Woody Allen: a sua ironia, o retrato social de uma certa elite nova-iorquina e o humor absurdo encantavam-me. A partir do novo milénio, e com alguma exceção, tornou-se um autor aborrecido, que perdeu a sua graça natural. Houve ainda uma fase, quando passou a filmar nas capitais europeias, em que parecia mais centrado na promoção turística das cidades do que no valor intrínseco das suas obras. Depois surgiu o Movimento Me Too que, se por um lado teve o papel meritório de denunciar casos de excessos como aquele que aconteceu com Harvey Weinstein, por outro teve uma componente de “caça às bruxas”. Foi isto que aconteceu com o realizador americano, relativamente a eventuais abusos sexuais sobre a sua filha menor de idade, situação nunca efetivamente provada pela justiça. Há também outros casos como o do cineasta Roman Polanski que foi julgado e declarado culpado por ter violado uma menor na década de 1970.

Cabe agora perguntar: devo deixar de me sentir cativado por alguns dos filmes mais impressionantes de Allen (como Match Point ou Crimes e Escapadelas), porque ele pode ter eventualmente abusado de uma criança? O mesmo acontece com o cineasta polaco: vou deixar de me emocionar quando vejo O Pianista, ou perante o final de Chinatown?

A resposta só pode ser uma: a separação entre o homem e o artista, entre o público e o privado. Os seus comportamentos privados podem ser reprováveis, mas o génio criativo existe e perdura no tempo.

Por Óscar Enrech Casaleiro – Comunicador cultural desde 1997, atento à atualidade desde sempre.

N.R.: Esta crónica tem periodicidade quinzenal e é da inteira responsabilidade do seu autor

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.