Crónica: Cultura Para Todos

Por Óscar Enrech Casaleiro

4. Para Que Serve um Presépio Restaurado?

Confesso que embirro com o mês de janeiro. Na passagem do ano estou desejoso de passar diretamente para fevereiro. Pior do que os seus dias curtos e do frio, é o facto de ser o mês de ressaca das festas. Temos de voltar ao trabalho ainda em fase de reabilitação, depois de ingerirmos calorias a mais e bebermos demasiado álcool, tudo para esquecer a conversa chata sobre drones do marido da prima, que só vemos na véspera de Natal. E, como é só naquele dia, ninguém se quer chatear, não é?  O único momento que me leva a esquecer esta azia é o Dia de Reis. Não porque seja tomado por algum fervor monárquico nem por ser fã do bolo-rei (prefiro o bolo rainha). A verdade é que simpatizo com os grupos de música popular que cantam as Janeiras em homenagem aos Reis Magos. Apesar de terem sido os criadores da ideia de oferta de presentes, gosto de acreditar que foi com espírito de entrega e partilha. É um momento tão importante que ocupa lugar central em todos os presépios dignos desse nome.

E se nos últimos tempos a divulgação destas peças tem sido massacrante ao ponto de provocar perturbações durante o sono, nada melhor do que regressar às origens e aos presépios mais antigos para valorizarmos o seu encanto. Vêm estas 211 palavras a propósito do presépio dos marqueses de Belas e da campanha de mecenato para a reabilitação organizada pelo seu detentor, o Museu Nacional de Arte Antiga. Não está em causa a importância deste presépio reabilitado com o apoio da sociedade civil. A obra, com mais de 200 anos, é uma joia barroca, e o restauro de todas as figuras, com o cortejo dos reis magos ao centro, será um trabalho de tal forma minucioso que é capaz de deixar os olhos dos responsáveis pelo seu restauro a precisar de uma recauchutagem no oftalmologista mais próximo.

O problema reside na forma como esta campanha foi concebida, que nada teve a ver com a campanha “Vamos Pôr o Sequeira no Lugar Certo”, promovida pelo Museu em outubro de 2015 para a aquisição do quadro “A adoração dos magos”. Nesta campanha angariaram-se mais de 600 mil euros com o apoio de 15 mil pessoas e 171 entidades. Para a reabilitação do presépio reuniu-se mais de 40 mil euros, sem termos acesso ao número total de apoiantes. E estão vocês a perguntar: então se angariaram o dinheiro necessário qual é o problema? A questão é que a discrição desta última campanha contrastou com o impacto festivo da anterior, que teve o mérito de popularizar o micro mecenato. Com a compra de um pixel por menos de um euro podíamos dar o nosso contributo, forma potentíssima de tornar cada um de nós responsável pela preservação do nosso património cultural. Se não se mantiver o mesmo impacto a ideia de mecenato popular vulgariza-se perdendo o combustível social conseguido na campanha de 2015.

Por Óscar Enrech Casaleiro – Comunicador cultural desde 1997, atento à atualidade desde sempre. 

N.R.: Esta crónica tem periodicidade quinzenal e é da inteira responsabilidade do seu autor

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