Crónica: Cultura Para Todos

Nº 28 – Para Que Serve A Série Conta-me Como Foi? 

Confesso que sou um grande fã da série Conta-me Como Foi. Apesar de ser baseada num original espanhol, nas anteriores temporadas que decorriam antes do 25 de Abril, sempre apresentou um microcosmos referente a uma realidade muito portuguesa, o que ainda se nota mais nos novos episódios que acontecem na década de 1980. Sei que não fica bem assumir isso numa conversa entre amigos ou conhecidos, num tempo em que se valorizam as referências às muitas séries cool e esteticamente elaboradas da Netflix ou da HBO. Ou então, se falarmos para um nicho ainda mais pequeno, as séries europeias transmitidas pela RTP2, que já vêm automaticamente com o “selo de qualidade”. 

Nesta série de ficção portuguesa nota-se um cuidado extremo ao nível da produção, e nenhum detalhe de época é deixado ao acaso (do guarda-roupa à forma de falar das diferentes personagens, dos elementos decorativos às referências da cultura popular). O elenco que mistura atores consagrados com atores menos experientes resulta muito bem, e o guião é eficaz embora por vezes resvale para um tom um pouco telenovelesco.

Mas, sejamos francos, o melhor que esta série nos traz está relacionado com a nostalgia e melancolia que provoca o seu visionamento junto das audiências com mais de 40 anos de idade, que viveram ou têm memórias vivas transmitidas pelos familiares. Este retrato do passado recente cria um elo emocional muito forte junto de quem o vê. É impossível ficar indiferente ao Renault 4 do casal protagonista, ao uso das cassetes VHS para gravar programas, às roupas da época que combinavam cores e padrões impossíveis de conjugar ou à forma como o café do bairro está decorado. Tudo isto porque nos lembramos dos passeios de carro com os nossos pais numa viatura igual ou parecida, dos programas e filmes que gravámos no VHS, ou porque o café onde íamos com os pais ao fim-de-semana é muito parecido com aquele que está representado no Conta-me Como Foi.

As séries ou filmes que acontecem nesses tempos analógicas em que as referências de consumo eram reduzidas mas comuns a muitos fazem-nos viajar a um tempo em que idealizamos termos sido sempre felizes e inocentes.

Por Óscar Enrech Casaleiro – Comunicador cultural desde 1997, atento à atualidade desde sempre.

N.R.: Esta crónica tem periodicidade quinzenal e é da inteira responsabilidade do seu autor

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