Crónica: Cultura Para Todos

Nº 23 – Para Que Servem Os Subsídios À Cultura?

Há muitos anos atrás tive uma Professora de Química, uma das melhores que conheci, que precisou de utilizar muletas por razões de saúde. Percebia-se que era uma chatice (“são pesadas e pouco práticas quando nos queremos sentar” desabafava ela quando a questionávamos), mas só assim se conseguia deslocar e tornar a sua vida quase normal. Sem esta ajuda ficaria imobilizada e invisível para os outros e eu ainda saberia menos de química do que aquilo que sei (que infelizmente é muito pouco). A partir daí sempre olhei com consideração especial para quem se desloca de muletas.

Vem isto a propósito dos artistas e produtores culturais e da sua necessidade em receber os seus apoios ou muletas à criação. Apesar dos protestos e reclamações dos artistas não apoiados se terem tornados tristemente célebres, na verdade têm razão. Por uma razão: o pequeno número de consumidores culturais em Portugal a pagar bilhete não lhes permite rentabilizar uma produção de teatro, música ou dança, e muito menos de cinema. Se acabassem estes apoios financeiros desapareceriam as artes do espetáculo e o cinema em Portugal, seria impossível a sua sobrevivência. Ficaríamos cinzentos e culturalmente ainda mais pobres.

No entanto este modelo de apoio peca por defeito, não são habituais as estruturas de criação cultural que contam com uma vida financeira auto-sustentável. Estes apoios são apenas formas de manter a criação de espetáculos e filmes ligada às máquinas. Além de faltar uma política educativa que fomente o interesse em descobrir estas obras é necessário mais.

É preciso estimular a procura: aplicar apoios financeiros ao público na aquisição do bilhete, tudo isto poderia ser ainda mais cativante se fosse bem embrulhado numa campanha de marketing. É preciso apostar em apoios ao público que é o mais esquecido: aquele que já não é estudante e que ainda não está reformado. Estes incentivos poderiam servir de chamariz para fomentar hábitos culturais, um empurrão para quem tem interesse em descobrir as artes, mas que tem de fazer o cálculo das suas contas antes do fim do mês. Muitas vezes não dá para tudo.

Por Óscar Enrech Casaleiro – Comunicador cultural desde 1997, atento à atualidade desde sempre.

N.R.: Esta crónica tem periodicidade quinzenal e é da inteira responsabilidade do seu autor

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