Crónica: Cultura Para Todos

Nº 23 – Para Que Servem Os Festivais De Música E Cinema De Portugal?

Na minha infância entre muitas outras coisas percebi que o filho do meu vizinho do lado conseguia ser ainda mais guloso do que eu, o que me parecia uma coisa quase impossível. Os dois adorávamos bolos, mas ele tinha uma preferência especial pelos pastéis de Tentúgal, e como tinham pouco recheio sabiam-lhe a pouco. Por isso apetecia-lhe sempre mais um, tinha de ser a mãe a controlar a sua vontade. Se não estivéssemos em 1983 e não tivesse eu 9 anos, teria classificado esta sua gulodice como um comportamento compulsivo.

No entanto, este seu lado teve um triste fim. Um dia que estava sozinho em casa comeu seis pastéis de Tentúgal ao longo da tarde. Primeiro sentiu-se enjoado e depois os bolos sairam-lhe da pior forma colocando um ponto final à sua gulodice militante. Passado algum tempo tornou-se vegan, enquanto eu continuo a militar orgulhosamente na costeleta de vaca e nos secretos de porco.

Vem isto a propósito dos festivais de música que acontecem em cada canto do nosso país (em 2018 foram mais de 300!), e dos Festivais e ciclos temáticos de cinema que acontecem também em grande número, especialmente em Lisboa. Ao contrário do que seria previsível num reduzido mercado cultural português, em que tudo parece levar à redução drástica deste tipo de eventos, na verdade isso não aconteceu. Dotados de um grande sentido de marketing, os festivais diferenciaram-se na sua oferta e no seu público-alvo. Já não são “apenas” espaços onde se ouve música, mas há também zonas dedicadas à Gastronomia, diversão, convívio, debates, Cinema ou Teatro. Por outro lado há festivais que não são apenas para adolescentes mas também para famílias, apreciadores de rock ou jazz a ter lugar em aldeias ou parques urbanos… Nos certames de cinema da capital portuguesa a especialização é ainda maior (documentário, terror, bandas sonoras, cinema brasil, argentino…) alguns deles já com vários anos de vida. Parece assim haver espaço para inúmeros nichos de público acorrerem a estes eventos ligados à música e ao cinema. Mas, acima de tudo, além da vontade de conhecer novos filmes ou músicos, será que estes públicos não procuram também o lazer e o contacto direto com momentos ao vivo?

Por Óscar Enrech Casaleiro – Comunicador cultural desde 1997, atento à atualidade desde sempre.

N.R.: Esta crónica tem periodicidade quinzenal e é da inteira responsabilidade do seu autor

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