Crónica: Cultura Para Todos

Nº 22 – Twinsters – Para Que Serve Um Documentário Sobre Gémeos?

Quando conhecemos irmãos gémeos ou casais que venham a ser pais de gémeos é difícil explicar o que sentimos. Pessoalmente sinto um misto de sensações. Se, por um lado, há um sentimento de solidariedade pela carga que está nas olheiras daqueles pais, que têm que duplicar os biberões, as birras e os banhos, por outro é impossível não sentir algum fascínio e curiosidade pelas vidas duplicadas daqueles seres que vão ter para o resto da vida uma ligação especial pelos traços físicos. 

Depois subsistem alguns mitos: haverá um irmão dominante? Deverão os gémeos vestir de forma diferente? Mas, a mais relevante é a dúvida sobre a identidade. Quando falamos de gémeos verdadeiros afinal quem é quem? Uma dúvida que nunca se coloca é aquela que tem a ver com a sua origem. Ou, pelo menos, partimos do princípio que não haverá muitos pais que não acompanhem o crescimento dos seus filhos duplos. 

Histórias de irmãos separados a nascença foram tão utilizadas em telenovelas que é difícil acreditarmos na sua transposição para o nosso quotidiano. Então se falássemos de duas raparigas iguais separadas para famílias de países diferentes isso seria ainda mais irreal. Seria mas não é. O documentário Twinsters (acessível pela Netflix) traz-nos uma história mirabolante a propósito de irmãs gémeas separadas, uma ficou na Europa e outra nos E.U.A. Tudo começou quando o amigo de uma das irmãs alertou-a que tinha visto uma rapariga exatamente igual a ela captada no trailer de um filme. Ela, depois de confirmar a estranha notícia abordou-a pelo Facebook para perguntar qualquer coisa como: Olha, tu és igual a mim! 

A partir daqui assistimos a muitas viagens de auto conhecimento das gémeas e das suas famílias: começam a redescobrir as suas características físicas, a encontrar as suas diferenças psicológicas, a seguir as suas famílias adoptivas, os seus locais, gostos  vários, amigos, e finalmente a busca da sua origem. Uma viagem amarga que não termina da melhor forma. Durante o visionamento deste documentário descobrimento a ideia de amor fraterno através do contacto com novas dimensões: um novo fôlego para os laços de família, a ideia de que afinal as redes sociais não são apenas diabólicas, mas podem dar um genuino contributo para as relações familiares e finalmente a sensação estranha de estarmos a assistir a uma realidade que seria naturalmente parte de uma ficção de alguém com imaginação a mais.

É emocionante acompanhar esta viagem de duas almas que se reencontram apesar das adversidades que tornariam impossível esta história. Perante o amor das famílias e a emoção dos seus amigos, cada vez mais me convenço que é indiferente a forma como vemos cinema ou televisão. O que importa é conseguirmos descobrir estas pérolas perante uma oferta tão alargada de títulos que entram pelos nossos ecrãs.

Por Óscar Enrech Casaleiro – Comunicador cultural desde 1997, atento à atualidade desde sempre.

N.R.: Esta crónica tem periodicidade quinzenal e é da inteira responsabilidade do seu autor

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