Crónica: Cultura Para Todos

Por Óscar Enrech Casaleiro

Nº 19 – Para Que Serve A Animação Das Praias?

Sou um grande fã do cozido à portuguesa. Trata-se duma criação gastronómica perfeita em que a sua simplicidade agrada a todos: combinam-se vegetais com carnes gordas, saborosas e salgadas, mistura-se tudo, coloca-se a cozer e está pronto com aquele caldo delicioso. Só é pena que, depois dos quarenta, com a subida do colesterol ou das diabetes apenas possamos comer este prato uma vez na vida e outra na morte.

Claro que, há quem opte pela versão cozido à portuguesa fraco em calorias e isento de: carne de porco, nabo, farinheira. Mas a sensação não pode ser a mesma, afinal de contas é aquele conjunto de ingredientes, feito daquela forma, que marca a diferença.

Assim acontece com os programas de animação cultural das praias, que se têm espalhado por todo o país, como se de uma imparável e extensa mancha de óleo se tratasse. Por terem de tudo um pouco assemelham-se a um enorme caldeirão de cozido à portuguesa com uma combinação de ingredientes para agradar do neto à avó: concertos de música rock, pop, pimba, indie, desporto na areia, biblioteca de praia, feira de tasquinhas, artesanato, teatro de rua, animação infantil e certamente que falta alguma coisa…Tudo isto a prolongar-se entre um a três meses conforme o clima da praia.

Com a tendência para que os períodos de férias sejam usufruídos de uma forma cada vez mais repartida, a necessidade de manter animação permanente e de agradar a toda a gente é cada vez mais intensa não aconteça a tragédia de se perder algum veraneante. É como se, enquanto estivessemos a comer o nosso cozido à portuguesa, receássemos a ausência daquele naco suculento de farinheira.

O que acontece na verdade é que estes programas de animação, com exceção de algumas situações, carecem de identidade, são todos muito semelhantes. Já vimos aquele artista num cartaz em Loulé apesar de estarmos em Viseu, lembramo-nos do mesmo artesão numa barraquinha em Vilar de Mouros apesar de estarmos na Costa da Caparica.

Além disso, esse frenesim esquece os veraneantes que procuram, além de praia, um conjunto de momentos que tragam alguma serenidade e silêncio ao seu descanso, e que por apenas encontrarem uma animação permanente durante a sua estadia podem não voltar no ano seguinte.

Por Óscar Enrech Casaleiro – Comunicador cultural desde 1997, atento à atualidade desde sempre.

N.R.: Esta crónica tem periodicidade quinzenal e é da inteira responsabilidade do seu autor

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