Crónica: Cultura Para Todos

Por Óscar Enrech Casaleiro

Nº 17 – Para Que Serve Uma Casa-Museu?

Há uns tempos conheci alguém que podia ser diretor de uma associação de pessoas fascinadas pelas casas onde conhecidos, amigos ou familiares viviam. O objetivo, talvez inconsciente, permitia, em troca, dar a conhecer a sua própria casa na expetativa de ser pelo menos igualmente valorizada por quem a via. É um efeito “pescadinha de rabo na boca”, uma vez que a descoberta da casa dos outros era um meio para ver elogiada a sua própria casa. Para quê espreitar pelo buraco da fechadura ou pela janela se era possível abrir logo a porta? Será isto assim tão estranho? Provavelmente não é, trata-se de uma curiosidade natural conhecer o espaço onde os outros vivem, mesmo que as suas vidas sejam tão rotineiras como as nossas: comer, dormir, rir, ver televisão.

Relativamente às Casas Museu há um extra face às casas dos outros: os seus moradores notabilizaram-se pelo seu trabalho, maioritariamente artístico (escritores, escultores ou pintores). A maioria destas residências é normalmente oferecida pelos artistas ou pelas suas famílias a câmaras municipais ou juntas de freguesia. Quem não gostaria de saber como seria o escritório onde trabalhava Eça de Queirós, o espaço onde vivia Júlio Dinis ou onde José Malhoa recebia os seus amigos. Tinha obras de arte? A arquitetura seria elaborada ou simples? E o que fizeram na sua vida para além da sua obra artística?

Todas estas perguntas podem ser respondidas com um bilhete de acesso a estas casas, não fosse no entanto o facto de muitas destas casas museu trazerem aos seus responsáveis de gestão inúmeros problemas e armadilhas que fazem com que muitas delas se transformem em santuários petrificados como o quarto do adolescente desaparecido.

A primeira delas tem a ver com o poder do familiar ou do artista que cede a casa. Normalmente querem que tudo fique intocável, não como deixou o artista (esse já cá não está para confirmar) mas como o familiar quer que a casa fique espelhada para o público. E se o proprietário quiser em testamento acumular na casa a sua função museológica com a de apoio social?

Depois temos os acessos, qual é a casa particular, por mais ampla que seja, que tenha espaço interior suficiente para circular o público com dificuldade motora? Em troca temos espaços estreitos para acolher grupos que dificilmente terão mais espaço, já que habitualmente o espaço exterior é reduzido ou, se for amplo, poderá ter interesse pelas árvores e flores que aí se encontrem. E se houver inundações, infiltrações ou problemas estruturais, como fazer para não desvirtuar a residência do artista?

Como se vê são muitas as armadilhas que ficam para os diretores destas casas-museu. Por isso lançamos a questão: que tal manter a casa como complemento a um espaço polivalente de apoio ao público onde fique exposta a carreira do artista?

Por Óscar Enrech Casaleiro – Comunicador cultural desde 1997, atento à atualidade desde sempre.

N.R.: Esta crónica tem periodicidade quinzenal e é da inteira responsabilidade do seu autor

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