Crónica: Cultura Para Todos

Por Óscar Enrech Casaleiro

Nº 15 – Para que serve o Teatro Municipal Maria Matos?

Tal como o resto dos cidadãos deste país também tenho o meu cartão de cidadão e, arrisco dizer que, tal como a maioria dos meus compatriotas, também não me revejo na imagem que lá está. Entre a expressão de presidiário e a sensação do rosto parecer ter saído de uma sessão de botox, nada daquilo bate certo com o que me parece ser a realidade. No entanto, quando um polícia, um inspetor das finanças ou um recepcionista de hotel me pedem que apresente o meu documento de identificação não questionam se sou mesmo eu, porque aquele cartão valida a minha identidade. Com mais ou menos peso, mais ou menos cabelo eu sou aquele que está naquela imagem.

Ora, o mesmo não acontece quando pensamos no bilhete de identidade do Teatro Municipal Maria Matos, apesar de pertencer à Câmara de Lisboa desde 1982 e ser programado pela equipa da Cultura desde 2006. Nem com a mesma vereadora da cultura desde 2007, este espaço teatral do bairro de Alvalade se livrou dum percurso errático que não permite criar uma identidade consistente. Complicam-se as expetativas do público deste teatro que perguntará:”Afinal o que dá para ver nesta sala?”. Se vos estiver a parecer um exagero da minha parte reparem o que tem acontecido nos últimos 12 anos. Entre 2006 e 2008, o ator Diogo Infante assumiu a direção deste teatro com um propósito claro: dar a conhecer ao público obras populares de autores prestigiados como Cabaret de Bob Fosse (com o casting para a protagonista a ser feito através de um programa de televisão) ou A Dúvida de John Patrick Shanley. Chamar um público alargado era o seu objetivo que foi plenamente assegurado a julgar pelo público que acorreu a estes espetáculos. Em 2008 foi a vez do coreógrafo e programador Mark Deputter ser chamado a programar o que o público poderia ver no Maria Matos. Durante os dez anos seguintes tomou corpo uma oferta de espetáculos experimentais, de nicho, dedicado às artes performativas contemporâneas. A finalidade já não passava por encher a sala e a plateia chegou a ser readaptada para um número de lugares inferior aos 447 originais.

E depois desta fase o que poderiam esperar os espetadores do Maria Matos entretanto fidelizados ao longo de dez anos: a continuidade de propostas de autores experimentais da atualidade? Nada disso. Se quiserem isso terão de passar a ir ao Teatro do Bairro Alto, que regressa à programação camarária. O Maria Matos deixará de ser municipal e passará a ser arrendado a empresa Força de de Produção que deverá ter como linha orientadora fazer do teatro um “pólo de forte atração cultural”, capaz de “gerar uma dinâmica inovadora e de atrair públicos diversos”, “ancorada na diversidade de propostas pluridisciplinares para o grande público”.

Percurso acidentado: em 12 anos começou por ser vocacionado para o grande público, depois passou para uma orientação de nicho e agora volta ao grande público. Palavras para quê?

Por Óscar Enrech Casaleiro – Comunicador cultural desde 1997, atento à atualidade desde sempre.

N.R.: Esta crónica tem periodicidade quinzenal e é da inteira responsabilidade do seu autor

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