Numa altura em que o Mundo está de pernas para o ar, surge um gentil convite para escrever sobre um dos pilares da minha vida. A Cultura. 

Foi-me pedido no mesmo dia em que houve uma manifestação do sector artístico, de manhã. Manifestação essa sem qualquer presença de alguém responsável da parte do Ministério, o que já de si denota uma total indiferença à classe.  Nessa mesma noite o Primeiro Ministro fecha-nos as portas na cara, obrigando centenas de profissionais a adiar, cancelar, alterar, repensar, adaptar os seus espetáculos já marcados, e que consta que são seguros, sendo que todas estas acções foram tomadas em poucas horas.  

Escrever sobre a Cultura com a tamanha mágoa que tenho neste momento, pode tornar este texto numa lamúria que não reflete a verdadeira luta. Somos os mais resistentes. Somos os que se adaptam a todas as circunstâncias. Somos os primeiros a ser chamados para as borlas e as solidariedades. Então e agora? Somos o quê? 

Os que se adaptaram rapidamente a estas novas circunstâncias do Estado de Emergência, foram os que tiveram essa capacidade e coragem.  Foram os que têm como missão aculturar um País! Haverá maior serviço público que este? E é essa missão que nos faz andar para a frente mesmo tendo de derrubar os muros que nos são levantados.

Acredito que toda esta reviravolta no mundo se vá tornar em mais uma Era passada mais rapidamente do que seria de se prever. E terá um desfecho trágico se este vírus não for travado a tempo. Por todas as razões, as de saúde, as políticas, as da Humanidade! Estamos a perde-la. Estamos a tornar-nos em seres que convivem sem mostrar as expressões que nos permitem, numa capacidade animal, reconhecer se estamos perante algo que nos agrade ou que nos cause repúdio.  Estamos a transformar-nos em humanos que não beijam nem abraçam. E a vida é tão vazia sem o aperto de um abraço. Estamos confinados às nossas casas, deixando de lado o convívio e matando a amizade.  Passamos horas e horas do dia a olhar para ecrãs. Seja dos telefones, ipads, computadores, televisões… Temos a visão enquadrada naqueles monitores que já de si tinham castrado muita da convivência social. 

Remetendo-me para a minha profissão, como actriz posso assegurar que é absolutamente diferente  fazer um espetáculo para uma plateia de máscaras. Requer aprender novas formas de comunicar com o público. Porque não pode ser igual! Tem de ser diferente. Nós mudámos. E essa é a realidade. No espaço de 1 ano todos mudámos. Acreditámos no início em palmas às janelas e em pintar arco iris com a inspiradora frase “vai ficar tudo bem”. E deixámos que o Verão nos toldasse a visão ao que se passava no resto da Europa. Nas Américas o descontrolo é total, em grande parte de culpa dos seus dirigentes fascistas que negligenciaram o virus. Mas na Europa a onda vinha em grande velocidade e o final é sempre aqui. No país à beira mar plantado. Para o bom. E para o mau.

Este fechar “às prestações” é como prolongar por maldade a vida de quem esteja já em cuidados paleativos. Já houve quem criticasse os artistas… “podem fazer de manhã”… Pois. Pois podemos. Alguns espetáculos, podemos. Outros não. Não é tudo igual. Não é mecânico. E é por isso que é mágico e é por isso que quando se senta na cadeira de uma sala de espetáculos, sabe que vai fazer uma viagem.

O que eu adoro ser público. O que eu adoro ser surpreendida por colegas, que me fazem esquecer a minha condição de actriz e me levam para dentro das suas histórias. O bom que esta loucura toda me trouxe é que tenho ido ao teatro. Grande parte das vezes vou sozinha. É quase uma situação sacramental.  Um rito. Não maior que o que existe em mim quando estou do outro lado. Quando estou dentro da caixinha de madeira e sou uma marioneta que dá vida a uma personagem e conta uma história.

Ainda há dias em que acordo a pensar que foi tudo um grande pesadelo.  Mas depois o mundo evidencia-se e mostra tudo o que de mau este vírus nos trouxe. Dou aulas de teatro a crianças até aos 10 anos. Este ano não há os abraços que tanta as caracterizam. Há exercícios que têm de ser repensados por causa do toque e da distância social… há uma barreira entre aquilo que lhes ensino e a realidade actual. Dar “expressão” dramática, de máscara, e não usar a “expressão”. Aquela que os faz perceber se estou triste, feliz, zangada,alegre, raivosa… aqueles sentimentos que lhes peço para “expressarem” facialmente. 

Quando me perguntam como vejo o Teatro daqui a 20 anos, não sei responder. Sei que gostava que fosse para todos, que tivesse os apoios certos para poder aculturar o País, que todas as crianças tivessem acesso à magia de que é ver teatro na infância, que os seniores pudessem faze-lo também dentro das suas actividades diárias, que houvesse mais oferta, que as salas tivessem melhores condições, que as oportunidades de divulgação fossem equalitárias. Podia continuar umas dezenas de linhas a escrever. Mas não é disso que se trata. Espero que o teatro se mantenha com aquilo que o faz respirar. O público. Na mesma sala onde o espetáculo decorre. Sem zooms nem streaming’s.  Está tudo muito confuso e nublado na Cultura neste momento.  Tal como este texto. Várias vezes os meus olhos nublaram a escrever… com aquelas lágrimas grossas e salgadas que fazem arder os olhos.  Espero chorar brevemente de alegria. Quando voltar a pisar o palco sem ter a minha expressão radiante tapada por uma máscara.

Isabel Guerreiro, conta já com 20 anos como actriz. A sua estreia como profissional de teatro em 2000 no Teatro Armando Cortez e, após ter regressado da escola de teatro em São Paulo, foi o ínicio de um já bem recheado caminho pelos palcos com alguns projectos marcantes. Dos clássicos ao contemporâneo já a podemos ver em Shakespeare, Lorca, Brecht,  como em espetáculos performativos ou imersivos como Alice – O outro lado da história ou Phobos os Orfãos de Amor. As produções de ficção também já fizeram parte do caminho da actriz.
Nos dias de hoje para além de trabalhar em várias companhias de teatro,tem na sua mão a direcção de produção da Capítulo Reversível que co fundou com o actor e encenador Sérgio Moura Afonso.

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