O Condensado Trágico – Cómico De Shakespeare Em Cimbelino Para Ver No Convento Do Carmo

Reportagem de Tânia Fernandes (Texto) e Fotografias de António Silva

Já havia corrido muita tinta pela pena de William Shakespeare quando Cimbelino ganhou forma. A peça de teatro, pelo Teatro do Bairro, chega hoje às Ruínas do Carmo e pode ser vista, todas as noites, até ao dia 13 de agosto.

É num cenário natural único que assistimos a uma das últimas peças do célebre escritor inglês. Intriga, tragédia, mas também muita comédia envolve um enredo mirabolante, que muito acreditam ser um exercício de autocrítica do próprio autor. Há, no texto, marcas de muitas das suas histórias. Para António Pires, o encenador, está lá tudo: “esta peça tem uma escrita muito livre, com cenas muito curtas. Há uma grande mobilidade, não são as cenas habituais de Shakespeare”. É quase aquilo que hoje apelidamos de escrita cinematográfica. “Quando a acção começa, já está instalado o conflito!” refere o encenador.

Cimbelino

Todos os grandes traços de Shakespeare estão condensados nesta obra, e António Pires amplificou isso com imagens que lhe juntou da sua memória. Há sons do barroco a envolver toda a peça e nela encontramos traços de quadros famosos: as meninas de Velasquez, a Medusa de Caravaggio,  os Amantes de Magritte ou as flores de Klimt. A dança acompanha alguns momentos e até aí o texto vai às nossas memórias buscar movimentos repetidos do folclore, que junta a  deslocações bélicas, na ilustração de uma batalha.

Há seis anos atrás, o Romancero Gitano de Lorca havia trazido António Pires a este espaço e ficou a vontade de voltar. A celebração dos 400 anos da morte de Shakespeare foi outra das justificações dadas para a escolha deste texto. Adriano Luz, Ricardo Aibéio e Rita Loureiro foram opções óbvias, pelo trabalho que tem vindo a ser desenvolvido já há alguns anos. A peça integra ainda os atores João Araújo, João Barbosa e 22 alunos finalistas da Act School.

António Pires acompanha habitualmente o exercício final destes estudantes e percebeu que seria interessante que eles participassem numa produção real, a contracenar com atores profissionais e fazer parte de um espetáculo, em palco, com público. “Shakespeare é muito bom porque tem muita gente” admite, entre risos. “Temos assim atores para todos os papéis sem ser necessário que eles se desdobrem”.

Muito importante foi o trabalho prévio de preparação, com a adaptação feita por Luisa Costa Gomes. “O texto é uma coisa muito concreta, já o é no original, mas a adaptação de Luisa Costa Gomes faz com que toda a gente o entenda. Mantém o vocabulário poético, mas a escolha de palavras é muito direta” explica António Pires.

A peça baseia-se na história de Cunobelino, rei da Britânia, durante a ocupação romana da região. Shakespeare apresenta-nos, em Cimbelino, uma visão negra do mundo em tom de comédia.

Encontramos várias linhas a coser este enredo: a história do amor contrariado da princesa Imogénia e Póstumo Leonato; uma rainha que pretende que a princesa Imogénia case com o seu filho, fruto de uma união anterior e assim consolide o seu poder; uma suposta infidelidade de Imogénia que leva a que Póstumo ordene ao seu criado Pisanio que a mate; a luta pela independência dos britânicos face ao Império de César; e o reconhecimento dos filhos raptados do rei.

Uma hilariante cena final intensa e reveladora, traz luz ao palco e repõe a verdade dos factos.
 Cimbelino

Para ver de 3 a 13 de agosto, pelas 21h00, nas Ruínas do Convento do Carmo, ao Chiado, em Lisboa. Os bilhetes, com preços entre os 10 e os 15 euros estão à venda no Teatro do Bairro e online.

A produção é do Teatro do Bairro e o espetáculo está inserido no Festival Shakespeare de Lisboa, uma iniciativa do Teatro Nacional D. Maria II e do Teatro São Luiz.

A peça tem legendas projetadas em língua inglesa.

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