Carlos Do Carmo E Raquel Tavares Encerraram As Celebrações De Aniversário Do Campo Pequeno

Reportagem de Madalena Travisco (texto) e Joice Fernandes (fotografias)

A emblemática sala do Campo Pequeno foi, na noite de 18 de novembro, uma grande e bonita casa de fados, com uma mesa ao centro, por ocasião do concerto de encerramento das comemorações dos 125 anos do Campo Pequeno. E nessa grande e bonita casa de fados, além de uma plateia que agradou pela generalidade dos silêncios com que apreciou Fado, estiveram dois grandes fadistas, com um significativo gap na idade e no estilo, mas com cumplicidade, admiração e respeito: Carlos do Carmo e Raquel Tavares.

Carlos do Carmo, o Senhor Fado, que reconhece que os silêncios nunca são iguais porque os públicos não são iguais: “(…) Às pessoas que vieram aqui, que vêm ouvir cantar o fado. Eu queria agradecer-vos esse silêncio, mais do que as palmas (…)”

A Raquel Tavares, mais rabina, que herdou o xaile e o estilo da senhora dona Bia da Conceição: “(…) Espero que esta noite fique calcada na vossa memória, como eu tenho a certeza que vai ficar comigo (…).”

Ficará. Pelos duetos, pelas interpretações a solo, pela forma como que se escutava a cantar, pelos diálogos, pelos improvisos e também pelo reconhecimento da contenção e competência que um baterista pode introduzir no fado tradicional. “É a primeira vez que eu vou cantar com alguém que se acompanha com bateria. (…) – disse Carlos do Carmo. “Um baterista com sensibilidade fadista!”

“Se Não Sabes o Que é o Fado” em dueto foi o tema de abertura. Carlos do Carmo cede o palco a Raquel para o “Eu Já Não Sei” e “Gostar de quem gosta de nós” com Raquel a apelar a que nunca percam a oportunidade de dizer às pessoas que gostam delas. Sentada, escutou atentamente Carlos do Carmo que apresentou os três sublimes – José Manuel Neto na guitarra portuguesa, Carlos Manuel Proença na viola de fado e José Maria de Freitas no baixo – antes do “Um Homem na Cidade”. Trocando de lugar à mesa, Raquel lançou-se às “Sombras da madrugada” e ao fado vitória da senhora dona Fernanda Maria (“Candeias”).

“Canta bem a miúda, não canta? (…) Canta bem.” – brincou Carlos do Carmo. “A gente vai embora e há continuidade como deve ser.” Prosseguiu Carlos do Carmo com o fado das horas (“Fado longe, fado perto”) e “Duas lágrimas de orvalho”. Com Raquel um fado improvisado – “Por morrer uma andorinha” – o primeiro dueto à mesa.

Para a pessoa muito peculiar que a inspirou (e da qual herdou o xaile), Raquel dedicou o fado cravo ”Deste-me um beijo e vivi”, depois um fado corrido “O Ardinita” para recordar Fernando Maurício e uma explicação: “(…) Eu já poderia ter comemorado 25 anos de carreira, se tivesse carreira. Eu tenho um percurso. Canto há 27 anos, tenho 32. (…) A minha raiz há-se ser sempre o fado tradicional porque eu cresci, eu tive a sorte de crescer a ouvir e a conhecer essas pessoas [referindo-se a Beatriz da Conceição, Fernando Maurício, Lucília do Carmo, Maria da Fé…..] (…).

As primeiras palavras da “Gaivota” – “Se uma gaivota viesse…” irromperam aplausos que não fizeram estremecer o Senhor Fado que prosseguiu como sempre. As “trovas antigas/saudade louca (…)” do “Bairro Alto” foram entusiasticamente cantadas pela plateia sob a batuta do mestre. O mesmo aconteceu com o refrão de “Canoas do Tejo”. Palmas, muitas palmas, em cada final.

Tertuliando à mesa sobre os filhos crescerem sempre lentamente aos olhos dos pais ou sobre os amores e desamores da vida, Raquel cantou “Não me esperes de volta”. Revelou-se depois de pé, percursando apenas com as próprias palmas o início do “Limão” num crescendo que colocou Carlos do Carmo a trautear com as mãos nos joelhos, o público a cantar e Raquel num momento de bateria. Tempo agora para outros quatro sublimes – André Dias na guitarra portuguesa, Bernardo Viana na viola de fado, Daniel Pinto no baixo e Fred Guerreiro na bateria. “Meu Amor de Longe”- o sucesso de Raquel foi o tema seguinte.

Carlos do Carmo com “Pontas Soltas” (fado castanheiro), “Cheirinhos” e “Os Putos” fez pressentir a aproximação do final do concerto. Não sem outro momento de fado improvisado – à mesa e em dueto: “Estranha forma de vida” com aplausos de pé.

“Obrigada a todos os que vieram, com muita ternura, verem-nos”. Palmas, muitas palmas de pé. Ninguém arredou pé.

Carlos do Carmo e Raquel Tavares regressaram ao palco e à mesa. Para um dueto de um “Lisboa, menina e moça” em que o “menina”, “tão pura”, “varina”, “ternura”, bordada”, “estendida”, “amada” e “cidade mulher da minha vida” saíram das gargantas da plateia.

Lisboa menina e moça, menina
Da luz que meus olhos veem tão pura
Teus seios são as colinas, varina
Pregão que me traz à porta, ternura
Cidade a ponto luz bordada
Toalha à beira mar estendida
Lisboa menina e moça, amada
Cidade mulher da minha vida

“Vamos então deixá-los e dizer-vos que foi um imenso prazer cantar para todos os que vieram ver-nos. É sempre um prazer cantar para quem sabe ouvir fado.”

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