Camel recordaram The Snow Goose e outros êxitos em Concerto na Aula Magna

Reportagem de José Boaventura Rodrigues (Texto) e Tiago Espinhaço Gomes (Fotos)
 
1403_c&h.camel.aulamagna_019_siteEram 20h00, e uma fila de centenas de fãs contorna o edifício da Reitoria da Universidade de Lisboa. Num domingo (16 de março) com clássico desportivo a escassos quilómetros, os Camel encheram a Aula Magna de fãs ávidos de um clássico musical.

Os artistas entraram em palco pouco após a hora marcada (20h30) sobre uma ovação entusiasta dos fãs. Sem saudações nem conversas introdutórias, ouvem-se sons de gaivotas e notas de piano que anunciam o aguardado momento: Camel começaram a recrear o mítico álbum The Snow Goose.

Lançado em 1975 e reeditado recentemente, The Snow Goose é o mote para a primeira parte do concerto. Mantendo uma reprodução fiel ao original (com o alinhamento devidamente adaptado a versão de concerto), Andrew Latimer e restantes elementos alternam entre solos energéticos de guitarra e escalas estonteantes dos teclados, interrompendo pontualmente para interlúdios calmos e espaciais.

Toda a viagem de The Snow Goose é grandiosa e tanto a banda como a plateia sabem respeitar a solenidade do momento. As pausas entre músicas suscitam aplausos efusivos mas não abrem margem à interacção dos artistas com o público. Na plateia, os espectadores mantém-se num estado de êxtase controlado, a apreciar pelo pontual abanar da cabeça e acompanhamento de bateria com movimentos das mãos.

O atual alinhamento da banda (apenas Andrew e o baixista Colin Bass continuam desde a fundação) vai executando com mestria e expressividade as fabulosas progressões dos teclados e as complexas transições de ritmo. Já os veteranos continuam irrepreensíveis: as linhas de baixo de Colin Bass saem com precisão de estúdio e a energia transmitida pelo líder da banda, com maior liberdade de improviso através dos solos de guitarra, é contagiante. A pouco e pouco os artistas vão-se libertando: a quase meia hora de concerto assiste-se ao primeiro “frente a frente” entre guitarra e baixo, ao som do tema “Migration”. Os temas recorrentes de “Flight of the Snow Goose” e “La Princesse Perdue” arrancam gritos soltos da plateia e aplausos de pé dos espectadores mais fervorosos.

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A primeira parte do concerto termina passados 50 minutos com a primeira ovação de pé da plateia. Andrew Latimer, dirigindo-se pela primeira vez ao público, solta o primeiro “obrigado” da praxe e interrompe para o intervalo do clássico musical. The Snow Goose termina e é tempo de consagração com alguns êxitos da banda.

O regresso ao palco é marcado por alterações temporárias na formação: Latimer, Bass e Guy Leblanc (teclas) pegam nas guitarras acústicas, ao mesmo tempo que Denis Clement (bateria) assume controlo do baixo para o tema “Never Let Go”. Já Jan Schelhaas (teclas) mantém-se a cargo das teclas durante todo o concerto, utilizando modelos recentes (o Nord Stage vermelho chama sempre à atenção) para recrear os antigos sintetizadores Moog e orgãos Hammond. Este não o único sinal dos tempos modernos: a maçã luminosa do portátil de Guy Leblanc mostra que a era digital invadiu de vez o panorama musical, mesmo quando se recriam sons do passado.

Deixando os anos 80 de lado, a segunda parte é marcada por êxitos dispersos dos anos 70 (destaque para “Song Within a Song”,  “Echoes”) e 90 (“Hour Candle”, “Bobbins”). Os instrumentais alternam com secções (bem) cantadas pelos veteranos Latimer e Bass. As interacções com o publico são mais frequentes, com Latimer a servir de mestre de cerimónias. Há maior descontracção na expressão dos artistas, os breaks de bateria ganham vida e o público responde com entusiasmo, marcando uma e outra vez o compasso com as palmas do costume. Pelo meio há tempo para baladas mais calmas (“Hour Candle”, “Tell Me”) e até para o tema “Fox Hill” (2002), a fazer lembrar os clássicos dos Genesis e a persona de Peter Gabriel em palco, encarnada na expressão e nos gestos de Colin Bass.

Terminado o período regulamentar com o tema  “For Today”, a plateia prolonga a ovação de pé quanto baste para fazer a banda regressar ao palco a tempo do esperado encore. Em 12 minutos (mais coisa, menos coisa), “Lady Fantasy” é executada de forma competente e emotiva. As últimas notas são dadas em tom apoteótico, com Latimer na frente do palco de guitarra ao alto e pose de rockstar, exaltando o público para uma ovação final à qual a banda responde com sucessivas vénias. O clássico musical durou duas horas e meia e terminou com vitória para ambas as partes.

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