Bollani De Ouro Em Cascais No Sábado

Reportagem de Daniel Carvalho e Ana Filipa Correia

Vamos assumir que tenho um piano de cauda na sala-de-jantar. Assim mais ou menos como no teledisco em que o John Lennon toca o “Imagine” com a Yoko Ono pelas costas. Um piano e um Fender Rhodes mesmo ao lado, de forma a que seja possível ir alternando de teclado ou mesmo tocando nos dois ao mesmo tempo, uma mão em cada um. Vamos também assumir que Stefano Bollani é meu convidado e que, depois do jantar, resolve, por iniciativa própria, sentar-se à frente do teclado do(s) dito(s) cujo(s) e desatar a tocar. Por esta altura, eu estou sentado no sofá, de digestivo na mão, a ouvir.

Arrisco-me a dizer que não terei sido o único dos que se deslocaram ao Parque Palmela, em Cascais, para ver o pianista italiano tocar a quem esta imagem passou pela cabeça. O pianista apresenta-se a solo, numa performance minimalista e intimista ao ponto de parecer que somos uns felizes contemplados com um concerto privado. São cerca de uma centena de concertos privados que têm lugar no auditório daquele parque.

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As primeiras notas são um tiro de partida para uma prova de fundo, uma espécie de maratona musical, que se desenrola durante cerca de uma hora e meia (ok, se calhar meia-maratona). O que acontece daí para a frente é um pouco como a descrição que ouvimos amiúde de pessoas que passaram por um acontecimento traumático: vi a vida toda, em retrospectiva, naquele curto espaço de tempo mas que pareceu uma eternidade, a passar-me à frente dos olhos (aconteceu-me parcialmente da única vez que tive um ligeiro acidente de viação). Neste caso, ouvimos toda a vida musical de Bollani a passar ao lado dos nossos ouvidos, com a vantagem de não ser no espaço de uns segundos, por muito tempo psicológico que possam parecer durar.

O repertório é variado. A música italiana, como não podia deixar de ser, embora temas do próprio Bollani não tenham tido muito tempo de antena – apenas um, se não me falham as contas. A banda sonora do filme Amarcord de Federico Fellini e música popular napolitana, incluindo uma lindíssima “Reginella”. Pelo meio, o blues de Mungo Jerry no clássico “In the Summertime” e o “Frame by Frame” de King Crimson. E música brasileira: entre outros, o “Samba de Uma Nota Só” em que Bollani também cantou.

Aliás, a espaços, o pianista mostra-nos que não é só à frente de um teclado que está como peixe na água. Revela-nos uma segunda faceta de entertainer e arranca várias gargalhadas do público, falando um português de sotaque transatlântico. O ponto alto é, no entanto, a caricatura que faz da língua alemã, uma algaravia de quem fala alemão que nem uma vaca italiana e que, perto do final, acompanha ao piano com muita graça.

Como se ainda não chegasse, o encore é um autêntico exercício de loucos. Ao estilo dos pedidos de música da rádio, o pianista traz um papel na mão e, qual lista de supermercado, toma nota de dez pedidos musicais que, de seguida, vai tocar. Sinto, uma vez mais, que estou na minha sala-de-jantar e ouço-me dizer “Ó Stefano, toca lá aquela, pá!” Aqui vai a lista que consegui, a custo, tomar nota: “Tico Tico”, “Whisper Not”, “Voo do Moscardo” (“em português?”, pergunta), “Trem das onze”, “Garota de Ipanema”, “Sherazade” (“Rimsky-Korsakov?”), qualquer coisa de Ennio Morricone, “Marcha Turca”, “Volare” e o final do “Layla” do Eric Clapton.

O pianista, munido do rol de compras, senta-se novamente de frente para as teclas e, como se costuma dizer, meio Bollani e força. Todos estes temas são prontamente enfiados num medley fantástico e indescritível, com passagens onde se ouve uma fusão entre o “Whisper Not” e a “Garota de Ipanema”, onde, de repente, o “Tico Tico” sobressai pelo meio da “Marcha Turca”, e onde o moscardo, qual mosca na sopa, se vem intrometer.

Um resumo rápido, de duas palavras: Bravo Bollani.

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